Riscos Profissionais, Custos Organizacionais e Impacto Sistémico do Narcisismo no Trabalho
O narcisismo em posições de poder e influência profissional não é apenas uma questão de estilo pessoal ou traço de personalidade. A investigação em psicologia organizacional, comportamento organizacional e governação institucional demonstra que líderes com traços narcísicos elevados – em diferentes níveis hierárquicos – podem colocar organizações inteiras em risco, gerando custos financeiros, humanos e reputacionais significativos.
O que muitas vezes é interpretado como carisma, autoconfiança ou assertividade pode, na realidade, refletir um padrão de fragilidade emocional mascarada, decisões enviesadas e uso instrumental das pessoas.
1. Porque o narcisismo é especialmente perigoso em posições de poder: Cargos com autoridade formal ou informal oferecem:
- controlo sobre recursos e pessoas;
- influência sobre decisões estratégicas;
- visibilidade e reconhecimento;
- menor escrutínio direto.
Estes contextos podem amplificar traços narcísicos, sobretudo quando faltam mecanismos de regulação, feedback honesto e limites institucionais. O problema central não é a ambição: é a incapacidade de autorregulação, de aprendizagem com o erro e de responsabilização.
2. Principais riscos organizacionais associados a lideranças narcísicas
i. Tomada de decisões excessivamente arriscadas: Líderes com traços narcísicos tendem a:
- sobrestimar as próprias capacidades;
- subestimar riscos;
- ignorar dados que contrariam a sua visão;
- privilegiar decisões que reforçam imagem e protagonismo.
Consequências organizacionais:
- projetos mal avaliados;
- instabilidade estratégica;
- perdas financeiras;
- maior exposição a crises evitáveis.
ii. Desvalorização de equipas e conhecimento técnico: É comum a dificuldade em:
- aceitar aconselhamento;
- ouvir especialistas;
- integrar opiniões divergentes.
A discordância é vivida como ameaça, levando à centralização excessiva da decisão.
Impacto:
- empobrecimento da qualidade das decisões;
- silenciamento de alertas importantes;
- cultura de conformidade e medo.
iii. Criação de culturas organizacionais tóxicas: Lideranças narcísicas tendem a gerar ambientes marcados por:
- insegurança psicológica;
- competitividade destrutiva;
- favoritismo e punições arbitrárias;
- humilhação subtil ou explícita.
Custos humanos:
- burnout;
- ansiedade e depressão;
- quebra de motivação;
- aumento do absentismo.
As pessoas deixam de colaborar e passam a funcionar em modo de autoproteção.
iv. Elevada rotatividade e perda de talento: Profissionais qualificados tendem a sair quando:
- o mérito não é reconhecido;
- não existe espaço para contribuição real;
- há desvalorização sistemática;
- a liderança é imprevisível ou punitiva.
Custos organizacionais:
- recrutamento e integração;
- perda de conhecimento institucional;
- impacto negativo na produtividade;
- fragilização da reputação enquanto empregador.
v. Riscos éticos, legais e reputacionais: Traços como:
- sentimento de direito;
- baixa empatia;
- foco obsessivo em resultados;
- desprezo por limites,
aumentam a probabilidade de:
- práticas antiéticas;
- assédio moral;
- abuso de poder;
- litígios legais;
- sanções institucionais.
Consequência: erosão da confiança interna e externa.
vi. Gestão da imagem em detrimento da realidade: Existe frequentemente uma prioridade dada a:
- visibilidade;
- reconhecimento externo;
- narrativa pessoal;
- resultados de curto prazo.
Problemas estruturais tendem a ser:
- minimizados;
- ocultados;
- adiados.
O resultado é uma organização que parece saudável por fora, mas é frágil por dentro.
vii. Custos psicológicos e sociais invisíveis: Para além dos impactos mensuráveis, surgem custos menos visíveis:
- normalização do abuso psicológico no trabalho;
- desgaste emocional crónico;
- replicação de comportamentos abusivos em cascata;
- perda de sentido de pertença e confiança.
O narcisismo em posições de poder contamina a cultura organizacional.
viii. Porque estes perfis chegam a posições de influência: Alguns traços narcísicos são frequentemente confundidos com liderança:
- discurso confiante;
- auto-promoção eficaz;
- tolerância ao conflito;
- presença dominante;
- carisma estratégico.
Em processos de seleção que valorizam excessivamente performance e imagem, estes perfis tendem a ser recompensados.
ix. Como organizações podem reduzir o risco: Organizações mais resilientes:
- distribuem poder e responsabilidade;
- promovem feedback honesto e seguro;
- valorizam competências emocionais e éticas;
- avaliam impacto relacional, não apenas resultados;
- mantêm mecanismos claros de denúncia e proteção;
- evitam personalizar o sucesso numa única figura.
A liderança saudável é sistémica, não egocentrada.
x. Conclusão: o custo real do narcisismo profissional: Lideranças narcísicas não colocam apenas projetos em risco. Colocam pessoas, culturas e sustentabilidade organizacional em risco.
O custo do narcisismo não aparece apenas nos números – aparece:
- em equipas exaustas,
- no talento que sai,
- na ética fragilizada,
- na instabilidade constante.
Organizações que ignoram o impacto psicológico da liderança pagam caro. As que reconhecem, regulam e responsabilizam constroem ambientes mais seguros, produtivos e duradouros. Porque liderança verdadeira não é dominar: é não destruir enquanto se conduz.
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