Como é que o Abuso Narcísico acontece na prática?
O ciclo do abuso narcísico é um padrão relacional repetitivo de manipulação psicológica, utilizado para controlar o/a parceiro/a e levá-lo/a a duvidar da sua própria perceção da realidade. Cada fase reforça a confusão, a dependência emocional e o vínculo traumático, mantendo a vítima presa ao ciclo.
1. Idealização Intensa Inicial (“Love Bombing”): Nesta fase inicial, de “lua-de-mel”, o/a narcisista:
- Pode ocorrer uma demonstração excessiva de atenção, elogios constantes e ligação emocional acelerada, que faz com que a vítima, colocada num pedestal, se sinta especial.
- Esta intensidade precoce pode criar um vínculo emocional acelerado, tornando a separação posterior emocionalmente difícil.
Objetivo psicológico: Criar dependência emocional e estabelecer a ideia de que esta ligação é rara, intensa e insubstituível.
1.1. Porque a Expressão “Almas Gémeas” Pode Ser Usada em Dinâmicas Narcísicas (A crença em “almas gémeas” ou ligações espirituais profundas é legítima para muitas pessoas. O que se descreve abaixo refere-se a contextos relacionais específicos em que esta linguagem pode ser usada de forma instrumental):
Facilitação da Tolerância a Comportamentos Prejudiciais
- Quando uma relação é definida como única, especial ou “destinada”, pode tornar-se mais difícil questionar comportamentos desajustados.
- A ideia de um vínculo excecional pode levar a pessoa a tolerar situações que, noutro contexto, não aceitaria.
1.1.2: Linguagem de Vinculação Implícita
- A expressão “almas gémeas” pode criar a sensação de um laço permanente ou inquebrável.
- Isto pode gerar uma expectativa de exclusividade ou pertença que limita a autonomia emocional do outro.
1.1.3: Utilização de Referências Espirituais ou Religiosas
- Em alguns contextos, a linguagem espiritual pode ser usada para reforçar autoridade moral ou emocional.
- Pessoas com forte valorização da espiritualidade podem sentir maior pressão para respeitar ou manter o vínculo.
1.1.4: Ativação da Norma da Reciprocidade
- Quando alguém afirma uma ligação profunda, espera-se frequentemente uma resposta equivalente.
- Mesmo que a pessoa não partilhe plenamente dessa crença, pode sentir-se compelida a corresponder para não magoar ou rejeitar o outro.
1.1.5: Reforço da Auto-Imagem Idealizada
- A noção de uma ligação “especial” pode alimentar sentimentos de grandiosidade ou excecionalidade.
- A relação passa a ser vista como prova de singularidade, destino ou superioridade emocional/espiritual.
2: Desvalorização: O pedestal é retirado. O/a narcisista começa a:
- criticar subtil ou abertamente;
- desvalorizar sentimentos e necessidades;
- usar sarcasmo, comparações, insultos ou gaslighting;
- alternar afeto com frieza.
Impacto na vítima:
- confusão emocional;
- perda de auto-estima;
- esforço constante para “voltar a ser quem era no início”.
3: Rejeição (Descarte): O/a narcisista afasta-se ou termina a relação:
- de forma abrupta ou fria;
- quando já não obtém validação, atenção ou controlo suficientes;
- frequentemente acompanhado/a de indiferença ou crueldade.
Esta fase é especialmente comum quando:
- a vítima começa a impor limites;
- questiona comportamentos;
- ou deixa de alimentar o ego do/a narcisista.
4: Hoovering (Tentativa de reaproximação): O nome vem de “aspirador” — o objetivo é puxar-te de volta para o ciclo. Pode incluir:
- love bombing renovado;
- promessas de mudança;
- pedidos emocionais;
- aparições inesperadas;
- culpa, nostalgia ou dramatização.
Nota importante: O hoovering não significa mudança real – apenas uma tentativa de recuperar controlo e fornecimento narcísico.
5. Porque é que este ciclo é tão eficaz?
- Alterna reforço positivo e negativo;
- Cria esperança intermitente;
- Confunde amor com intensidade;
- Enfraquece a perceção interna da vítima.
Este padrão gera vínculo traumático, tornando emocionalmente difícil sair, mesmo quando existe consciência do abuso.
6. Sobre a Recuperação: A recuperação do abuso narcísico:
- é um processo gradual;
- exige tempo, segurança e validação;
- beneficia de apoio emocional (rede segura, terapia).
É normal:
- sentir ambivalência;
- duvidar de si;
- precisar de reaprender limites e identidade.
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