O ABUSO NARCISISTA – I

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Introdução

Nem toda a violência psicológica é evidente. No contexto do narcisismo patológico, a manipulação raramente se expressa através de agressão direta ou ostensiva. Pelo contrário, instala-se de forma silenciosa, cumulativa e profundamente desorganizante, tanto a nível emocional como identitário. Muitas vítimas apenas reconhecem o dano quando já se encontram a duvidar de si próprias, da sua perceção da realidade e do seu critério interno.

Este artigo propõe uma leitura clínica das principais dinâmicas do narcisismo patológico em contexto relacional, explorando os mecanismos de controlo, distorção da realidade, desresponsabilização e condicionamento emocional, bem como o impacto psicológico profundo que estas relações exercem sobre quem as vive.

1. O que é um/a Narcisista e Por Que Há Abuso?

O abuso narcísico é uma forma de violência psicológica e emocional contínua. Ocorre quando uma pessoa com traços narcisistas patológicos usa manipulação, controlo, desvalorização e distorção da realidade para manter poder sobre outra pessoa e proteger a própria autoestima frágil.

O narcisismo patológico é frequentemente reduzido, no discurso popular, a traços de vaidade, egocentrismo ou arrogância. Contudo, do ponto de vista clínico, o narcisismo patológico ou a Perturbação de Personalidade Narcisista não se define por traços isolados, mas por uma organização global da personalidade.

Trata-se de um padrão persistente e rígido do funcionamento emocional e relacional, que causa sofrimento e prejuízo nas relações e na vida social, caracterizado por:

  • instabilidade da autoestima,
  • dependência crónica de validação externa,
  • défice na integração de representações positivas e negativas do self e do outro, e relações marcadas por assimetria de poder.

Porque há Abuso? Um/a narcisista abusa porque não consegue existir emocionalmente de outra forma. O abuso não é um erro, nem um acidente, nem algo que aconteceu “porque tu fizeste algo errado”. O abuso é a forma como ele/a regula o caos interno que carrega.

1.1. Porque ele/a não consegue lidar com o que sente por dentro. Dentro de um/a narcisista existe:

  • um vazio profundo,
  • vergonha constante,
  • sensação de não ser suficiente,
  • medo intenso de ser insignificante.

Esses sentimentos são tão dolorosos que ele/a não consegue suportá-los sozinho/a. Então faz algo fundamental: desloca essa dor para fora. Em vez de sentir a própria dor, ele/a provoca dor no outro. Em vez de lidar com a própria vergonha, cria vergonha em quem está perto. Abusar é uma forma de alívio emocional para ele/a.

1.2. Porque precisa de sentir poder para não colapsar: O/A narcisista sente-se internamente fraco/a, instável e inseguro/a. Para não entrar em colapso emocional, ele/a precisa sentir:

  • controlo,
  • superioridade,
  • domínio.

Quando te controla, ele/a sente-se menos perdido/a. Quando te diminui, sente-se menos pequeno. Quando te confunde, sente-se menos confuso/a. O abuso não vem de força emocional. Vem de desespero psicológico.

1.3. Porque não vê o outro como pessoa, mas como função: Para um/a narcisista, o outro não é vivido como um ser humano completo. É vivido como uma função:

  • alguém que valida,
  • alguém que acalma,
  • alguém que absorve tensão,
  • alguém que confirma valor.

Quando deixas de cumprir essa função – quando ganhas autonomia, limites, clareza – ele/a sente-se ameaçado/a. E reage com:

  • frieza,
  • agressividade,
  • manipulação,
  • punição emocional.

O abuso surge quando deixas de servir.

1.4. Porque inveja o que tu tens e ele não tem: O/A narcisista inveja profundamente:

  • a tua capacidade de sentir,
  • a tua empatia,
  • a tua autenticidade,
  • a tua identidade estável.

Ele/a não consegue ser como tu. E como não consegue alcançar, tenta destruir. Desvalorizar é uma forma de dizer: “Se eu não posso ter isso, tu também não vais”. O ataque nasce da inveja, não da superioridade.

1.5. Porque não tem empatia real: O/A narcisista pode entender intelectualmente que magoa. Mas não sente o impacto emocional no outro. Quando tu sofres, ele/a não sente culpa saudável. Ele/a sente:

  • ameaça,
  • crítica,
  • risco para a imagem dele/a.

Por isso:

  • não repara,
  • não assume,
  • não muda.

O problema, para ele/a, nunca é o que fez – é o facto de tu teres reagido.

1.6. Porque o abuso mantém o ciclo de dependência: O abuso cria:

  • confusão,
  • culpa,
  • dúvida,
  • medo de perder.

Tudo isso mantém a outra pessoa presa emocionalmente. E o/a narcisista precisa que alguém esteja preso/a, porque não suporta abandono emocional. O abuso mantém ligação. E ligação é sobrevivência para ele/a.

2. Para quem está a sobreviver ao Abuso Narcisista

O/A narcisista carrega o peso de tudo o que esconde. O peso de tudo aquilo que ele/a não consegue ser, não consegue sentir e não consegue sustentar dentro de si.

Ele/a vive a esconder um vazio profundo. Um vazio que não tem fundo e não tem descanso. E quanto mais tenta escondê-lo, mais pesado se torna. Por fora, pode parecer confiante, forte, até superior. Por dentro, vive em constante tensão. Tudo nele/a é esforço. Tudo é defesa. Nada é paz.

O/A narcisista não ama: ele/a precisa. Não se liga: apropria-se. Não admira: inveja. E a inveja é o seu motor mais silencioso e mais destrutivo. Ele/a inveja aquilo que tu tens e ele/a não tem:

  • a tua capacidade de sentir profundamente,
  • a tua empatia,
  • a tua autenticidade,
  • a tua luz natural,
  • a tua integridade emocional.

Aquilo que em ti é espontâneo, nele/a é impossível. E como não consegue criar dentro de si o que lhe falta, tenta destruir fora. Ataca porque dói. Desvaloriza porque inveja. Humilha porque se sente pequeno/a. Controla porque tem medo. O/A narcisista vive numa guerra interna permanente. Nunca descansa. Nunca se sente suficiente. Nunca se sente inteiro/a. E tu… não eras o problema. Tu foste o espelho que ele/a não suportou. Foste a prova viva de que existe algo que ele/a não consegue alcançar. E isso é insuportável para alguém que vive de aparência e não de substância.

O abuso que sofreste não foi força. Foi doença emocional. Foi miséria psíquica. Foi desespero disfarçado de poder. Enquanto tu tens dor – mas também capacidade de cura – ele/a tem apenas defesas, máscaras e repetição. Tu sofres porque sentes. Ele/a ataca porque não sente.

Tu podes curar. Ele/a não, se não enfrentar a própria sombra. Tu podes crescer. Ele/a repete. Tu tens profundidade. Ele/a tem vazio. Tu tens consciência. Ele/a tem negação. Nada do que ele/a te fez define quem tu és. Define apenas o que ele/a não conseguiu ser.

Hoje, o teu caminho é de reconstrução. De devolver a ti mesmo/a tudo aquilo que foi atacado: a tua confiança, a tua intuição, a tua voz.

Não carregues a culpa de quem nunca soube amar. Não carregues a vergonha de quem vive escondido de si próprio/a. Tu estás Aqui: sobreviveste. E quem sobrevive, renasce com mais verdade. O/A narcisista continua preso ao próprio inferno interno. Tu, não. E isso é liberdade.

CONTINUA…

Carlos Marinho

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