MENSAGEM FINAL AOS/ÀS SOBREVIVENTES DO ABUSO NARCISISTA – XXX

Há textos que atravessam o tempo porque tocam o essencial da condição humana. Em De Profundis, Oscar Wilde escreve que Cristo, ao falar de amor, não o fazia pelo bem do outro, mas pelo bem da própria alma, porque o amor é mais belo do que o ódio. Quando pede que se venda tudo e se dê aos pobres, não está a falar de moral ou sacrifício externo, mas da alma que se desfigura quando vive agarrada ao medo, ao poder e à posse. Wilde lembra-nos que não há diferença real entre viver para os outros e viver para si quando se vive a partir do amor, e que cada vida, quando se aprofunda, pode tornar-se a história do mundo. Esta ideia é fundamental para compreender o que o abuso narcisista destrói- e o que, apesar de tudo, não consegue apagar.

O abuso que sofreste não foi força. Foi doença emocional. Foi miséria psíquica. Foi desespero disfarçado de poder. Enquanto tu tens dor, mas também capacidade de cura, ele/a tem apenas defesas, máscaras e repetição. Tu sofres porque sentes. Ele/a ataca porque não sente. Tu podes curar. Ele/a não, se não enfrentar a própria sombra. Tu podes crescer. Ele/a repete. Tu tens profundidade. Ele/a tem vazio. Tu tens consciência. Ele/a tem negação. A única forma de quebrar o feitiço deste envenenamento é purificar o coração com amor – não um amor ingénuo ou sacrificial, mas um amor que começa por ti, pela tua verdade e pela tua dignidade.

Nada do que ele/a te fez define quem tu és. Define apenas aquilo que ele/a não conseguiu ser. O/a narcisista continua preso/a ao próprio inferno interno. Tu, não. E isso é liberdade. Hoje, o teu caminho é de reconstrução: de devolver a ti mesmo/a tudo aquilo que foi atacado — a tua confiança, a tua intuição, a tua voz. Não carregues a culpa de quem nunca soube amar. Não carregues a vergonha de quem vive escondido/a de si próprio/a. Tu estás aqui: sobreviveste. E quem sobrevive, renasce com mais verdade.

Nada do que viveste aconteceu porque foste fraco/a, ingénuo/a ou “demasiado sensível”. A tua dor não é sinal de fraqueza; é sinal de humanidade. Sobreviveste a uma dinâmica que confunde, desgasta e silencia, uma dinâmica que tenta fazer-te duvidar de ti, apagar a tua voz e reescrever a tua história. E, ainda assim, estás aqui. Isso já diz muito sobre a tua força.

Talvez ainda sintas confusão, cansaço, raiva ou tristeza. Talvez ainda haja dias em que duvides de ti. Tudo bem. Isso não significa que estejas a regredir; significa que estás a integrar. Curar não é esquecer, é voltar a confiar em ti passo a passo. Há algo em ti que o abuso não conseguiu destruir: a tua capacidade de sentir, de refletir, de crescer, de escolher diferente.

A partir daqui, o caminho não é provar nada a ninguém. É regressar a ti. Cada limite que colocas é um ato de coragem. Cada vez que escolhes paz em vez de explicação, estás a recuperar poder. Cada momento em que te escutas é um passo para fora do ciclo. Não tens de fazer isto sozinho/a. Pedir apoio é um gesto de lucidez, não de fraqueza.

Há vida depois do abuso.

Há relações seguras.

Há amor sem medo.

Há descanso emocional.

Tu não és aquilo que te fizeram sentir. És aquilo que continuas a ser, apesar de tudo. E isso é força. Isso é dignidade. Isso é sobrevivência transformada em consciência.

Continua.
O teu caminho agora é teu.

Carlos Marinho

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