Estratégias Comuns Utilizadas no Abuso Narcisista
O abuso narcisista é um processo relacional progressivo, baseado em manipulação psicológica, erosão da identidade e inversão de responsabilidades. As estratégias abaixo surgem frequentemente combinadas.
1: Gaslighting: O gaslighting consiste na distorção sistemática da realidade:
• O/a agressor/a mente, omite informação ou reescreve acontecimentos
• Nega factos previamente ocorridos (“isso nunca aconteceu”, “estás a exagerar”)
• Invalida perceções e emoções da vítima.
Efeito psicológico: Com o tempo, a vítima passa a:
. duvidar da própria memória;
. questionar o seu discernimento;
. confiar mais na versão do/a agressor/a do que na sua própria experiência interna;
. Este processo gera confusão cognitiva, insegurança e dependência emocional.
2: Projeção Na projeção, o/a narcisista:
- atribui ao outro comportamentos, intenções ou falhas que lhe pertencem;
- acusa a vítima de ser controladora, fria, egoísta ou manipuladora: quando é ele/ela quem age dessa forma.
Função da projeção:
- evita a autorresponsabilização;
- desloca a culpa;
- mantém a imagem interna de superioridade e inocência.
3: Culpa Constante: Tudo passa a ser interpretado como:
- responsabilidade da vítima;
- falha da vítima;
- incapacidade da vítima de “fazer melhor”.
Mesmo situações externas ou imprevisíveis são usadas para reforçar a narrativa de que:
“Se tu fosses diferente, isto não acontecia”.
Resultado: culpa crónica, hipervigilância e autoanulação progressiva.
4: Culpa Invertida (Reação Tornada Problema): Este é um dos mecanismos mais nocivos:
- o/a narcisista magoa, desvaloriza ou ultrapassa limites;
- a vítima reage (emocionalmente, verbalmente ou com afastamento);
- o foco passa a ser a reação da vítima, não o dano inicial.
O discurso típico é:
- “O problema é a forma como reagiste”
- “Estás a ser dramática/o”
- “Olha como me fazes sentir”
O sofrimento do/a narcisista ocupa sempre o centro, enquanto o impacto causado é ignorado.
5: Silêncio Punitivo: O silêncio não é pausa saudável, mas instrumento de controlo:
- ignora mensagens, chamadas ou presença;
- retira afeto, atenção e validação;
- cria ansiedade e sensação de abandono.
Objetivo: punir, quebrar resistência e forçar submissão emocional. A vítima aprende que expressar limites tem custos emocionais elevados.
6: Inversão de Culpa (Vitimação do/a Agressor/a): O/a agressor/a apresenta-se como:
- incompreendido/a;
- injustiçado/a;
- vítima da sensibilidade, exigência ou “instabilidade” do outro.
Esta inversão:
- confunde terceiros;
- desorganiza a vítima;
- gera empatia pelo agressor, desviando o foco do comportamento abusivo.
7: Desvalorização Emocional
Os sentimentos da vítima são:
- minimizados (“isso não é nada”);
- ridicularizados;
- tratados como exagero ou fraqueza.
Formas encobertas incluem:
- correções constantes;
- explicações moralizadas;
- postura de superioridade ética ou intelectual.
A mensagem implícita é: “O que sentes não é válido”.
8: Triangulação: O/a narcisista envolve terceiros para:
- provocar ciúmes;
- criar insegurança;
- competir por atenção;
- validar a sua narrativa.
Pode envolver:
- ex-parceiros/as;
- amigos/as;
- familiares;
- até filhos ou colegas.
O objetivo é fragmentar a estabilidade emocional da vítima.
9: Afeto como Prémio e Castigo: O afeto não é espontâneo nem consistente, mas condicional:
- concordância → proximidade, carinho, atenção;
- discordância ou limites → frieza, distância, silêncio.
Este padrão:
- não constitui amor;
- funciona como condicionamento emocional;
- reforça comportamentos submissos.
A desvalorização surge frequentemente de forma subtil, não agressiva, o que dificulta a identificação do abuso.
10: Duplos Vínculos (“Double Binds”):Um duplo vínculo é uma situação comunicacional em que qualquer resposta é considerada errada, criando confusão, ansiedade e perda de confiança.
i. O que São Duplos Vínculos
- Um duplo vínculo ocorre quando a pessoa é colocada numa posição em que não existe resposta correta.
- Qualquer escolha leva a crítica, reprovação ou punição, gerando a sensação de estar constantemente em falha.
ii. Situações-Armadilha no Quotidiano
- Podem surgir situações aparentemente banais em que ambas as opções são posteriormente criticadas.
- O problema não está na escolha feita, mas na existência de critérios implícitos e mutáveis.
iii. Mensagens Contraditórias
- A pessoa pode ser incentivada a comportar-se de uma forma e, em seguida, criticada por esse mesmo comportamento.
- Exemplos comuns incluem pedidos de maior proximidade seguidos de acusações de dependência, ou pedidos de assertividade seguidos de críticas por agressividade.
iv. Incoerência Não Intencional
- Em alguns casos, as contradições não resultam de um plano consciente, mas de padrões críticos frequentes e inconsistentes.
- Ainda assim, o impacto psicológico no outro pode ser significativo, criando insegurança e auto-dúvida.
v. Função Relacional do Duplo Vínculo
- Estes padrões podem contribuir para manter uma dinâmica de controlo, ao colocar o outro num estado constante de tentativa de reparação.
- Quando a pessoa sente que está sempre errada, torna-se mais propensa a ceder, agradar ou submeter-se para evitar conflito.
11: Choro e/ou Auto-vitimização
- Alguns indivíduos – particularmente os narcisistas encobertos, recorrem a narrativas de sofrimento ou incapacidade para suscitar compaixão, gerar culpa ou responsabilidade excessiva no outro.
- Isto pode levar a que a outra pessoa se sinta emocionalmente impedida de se afastar da relação, e agir para aliviar esse sofrimento, mesmo em detrimento das suas próprias necessidades.
12: Generosidade Instrumental
- Gestos aparentemente “bondosos” ou prestáveis podem ser realizados com a expectativa implícita de reciprocidade imediata. A oferta de ajuda, presentes ou favores tende a criar obrigação psicológica.
- A pessoa que recebe pode sentir-se psicologicamente em dívida, dificultando a recusa de pedidos subsequentes, discordar e/ou estabelecer limites após esses gestos.
13: Criação de Dependência através de Favores
- Pode envolver pedidos relacionados com recursos emocionais, práticos ou materiais percebidos como essenciais.
- A retenção ou controlo posterior desses recursos pode dificultar a autonomia do outro.
14: Isolamento Progressivo
- Em alguns casos, observa-se a redução gradual do contacto com redes de apoio (família, amigos, contexto social).
- Isto pode aumentar a dependência emocional e prática dentro da relação.
15:Intimidação
- Pode ser utilizada intimidação emocional, verbal ou comportamental para colocar o outro numa posição defensiva.
- A intimidação pode reduzir a capacidade de questionamento e aumentar a obediência ou conformidade.
16:Pressão para Decisões Rápidas
- Pode existir insistência em decisões apressadas, sem espaço adequado para reflexão.
- A urgência reduz a capacidade crítica e aumenta a probabilidade de decisões desfavoráveis para a outra parte.
17: Colocação em Dilemas Relacionais
- Podem ser criadas situações em que a pessoa se sente obrigada a escolher entre confronto (gerando desconforto emocional) ou cedência.
- A tendência empática para evitar conflito pode levar à aceitação de exigências indesejadas.
18:Transferência de Culpa
- Pode ocorrer a atribuição de responsabilidade ao outro por comportamentos ou falhas próprias.
- Esta estratégia pode levar a que a pessoa empática duvide da sua perceção e acabe por assumir culpas que não lhe pertencem.
19:Expressões Emocionais Intensificadas
- Demonstrações emocionais intensas, como choro, podem surgir em momentos de confronto ou responsabilização.
- Estas expressões podem funcionar como mecanismos de desativação do conflito, levando o outro a recuar ou a minimizar as suas próprias necessidades
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