VERDADES RELACIONAIS DIFÍCEIS DE ENGOLIR (Guia de Reflexão sobre o que fazemos às relações que dizemos querer)

Há pessoas que chegam à consulta cansadas de tentar. Não necessariamente porque tenham vivido uma grande separação ou porque uma relação específica tenha terminado. Às vezes, aquilo que as traz é algo mais difuso, mais acumulado e, por isso mesmo, mais difícil de explicar. Um desânimo relacional.

Conhecem pessoas, mas as relações não avançam. Entusiasmam-se e a outra pessoa afasta-se. Sentem que são quase sempre elas a procurar, a perguntar, a propor, a manter a conversa ou a tentar perceber o que aconteceu. Encontram alguém que parece finalmente diferente e, algumas semanas depois, voltam a encontrar-se perante o mesmo silêncio, a mesma ambiguidade ou a mesma sensação de estarem emocionalmente mais investidas do que o Outro.

Outras nem sequer chegam tão longe. Abrem aplicações, conversam, conhecem pessoas, tentam sair, procuram novos contextos, e continuam sem encontrar aquilo de que sentem falta.

Ao fim de algum tempo, a pergunta deixa de ser: “Porque é tão difícil conhecer alguém?”. E começa silenciosamente a transformar-se noutra: “O que é que há de errado comigo?”


Quando uma dificuldade relacional começa a transformar-se numa conclusão sobre quem somos

Esta talvez seja uma das experiências mais dolorosas da solidão prolongada. O problema deixa de ser apenas não ter encontrado determinadas relações e começa a parecer uma prova acerca do nosso próprio valor. “Porque é que os outros conseguem?”, “Porque é que ninguém fica?”, “Porque é que sou sempre eu a interessar-me mais?”, “Porque é que tenho sempre de tomar iniciativa?”, “Porque é que as pessoas desaparecem?”, “Porque é que consigo conhecer pessoas, mas não construir nada verdadeiramente profundo?”, “Porque é que parece tão fácil para toda a gente e tão difícil para mim?”.

E, por baixo destas perguntas, pode começar a formar-se uma hipótese devastadora: “Talvez o problema seja eu”. Talvez eu seja demasiado intenso/a. Demasiado exigente. Demasiado emocional. Demasiado carente. Demasiado complicado/a. Demasiado estranho/a. Ou talvez não seja suficientemente interessante, suficientemente bonito/a, suficientemente desejável, suficientemente espontâneo/a, suficientemente independente, suficientemente fácil de amar.

A solidão começa então a fazer uma coisa particularmente cruel: transforma ausência de relação em aparente evidência de inadequação.

Mas uma coisa não prova necessariamente a outra. Não ser escolhido/a por determinada pessoa não significa ser alguém que não pode ser escolhido/a. Uma relação não resultar não significa ser incapaz de ter relações. Ter dificuldade em encontrar pessoas compatíveis não significa existir alguma falha fundamental em nós. E o facto de outras pessoas parecerem encontrar relações com maior facilidade também não nos permite conhecer a qualidade dessas relações, aquilo que toleram para as manter, as circunstâncias em que surgiram ou simplesmente a quantidade de acaso envolvida no encontro entre duas vidas.

A nossa vida relacional não é um teste padronizado do nosso valor.


Mas seria igualmente insuficiente responder: “O problema são os outros”

Há, porém, uma segunda armadilha. Quando alguém sofre repetidamente nas relações, podemos sentir vontade de tranquilizar: “Tu não tens nada de errado”, “São as pessoas que não sabem aquilo que querem”, “Hoje em dia, as pessoas são superficiais”, “Ninguém quer compromissos”, “Só aparecem pessoas emocionalmente indisponíveis”.

Esta explicação pode aliviar temporariamente a dor. Mas também nos deixa impotentes. Porque, se eu estou completamente bem e o problema está inteiramente no mundo, resta-me esperar que um dia apareça, por sorte, alguém suficientemente diferente.

Este texto propõe uma terceira possibilidade. Talvez não haja nada fundamentalmente errado contigo. E talvez, simultaneamente, existam coisas tuas que vale a pena conheceres melhor. As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.


Não é culpa. É participação.

Esta distinção será fundamental ao longo deste texto. Perguntar “como participo naquilo que me acontece?” é muito diferente de perguntar “de quem é a culpa?”. Participar não significa provocar. Não significa ser responsável pelo abandono, desinteresse, indisponibilidade, egoísmo ou comportamento inadequado de outra pessoa.

Significa reconhecer que entramos nas relações com uma história. Com expectativas. Com medos. Com necessidades. Com formas aprendidas de procurar segurança. Com critérios de escolha. Com maneiras particulares de interpretar silêncio, distância, iniciativa, rejeição, proximidade e diferença. E essas coisas influenciam aquilo que fazemos quando alguém entra na nossa vida.

Talvez procuremos garantias demasiado cedo. Talvez interpretemos ambiguidade como rejeição. Talvez esperemos espontaneamente do Outro aquilo que nós próprios faríamos. Talvez descartemos demasiado depressa pessoas que não provocam intensidade imediata. Talvez escolhamos repetidamente pessoas pouco disponíveis. Talvez precisemos de tanta certeza antes de experimentar alguma coisa que acabamos por experimentar muito pouco. Talvez antecipemos a desilusão para não termos de a viver. Talvez estejamos tão atentos/as aos sinais de que alguém nos pode magoar que deixamos de conseguir descobrir quem aquela pessoa realmente é. Talvez esperemos de uma relação com três semanas aquilo que só uma relação com três anos poderia oferecer.

Talvez queiramos pessoas, mas existam vários “mas” entre nós e elas. É aí que começa este trabalho.


O paradoxo: “Quero pessoas, mas…”

Este texto não foi escrito para pessoas que não querem relações. Foi escrito precisamente para quem as quer muito. Para quem sente falta de ter alguém a quem telefonar. Para quem gostaria de ter mais amigos. Para quem deseja apaixonar-se. Para quem quer pertencer. Para quem sente falta de profundidade. Para quem está cansado de conversas que não chegam a lado nenhum. Para quem abre uma aplicação e pensa: “Outra vez isto”. Para quem olha para casais, grupos de amigos ou vidas aparentemente preenchidas e sente uma mistura difícil de inveja, tristeza, esperança e vergonha. Para quem já pensou: “Eu tenho tanto para dar. Porque é que isto não acontece comigo?”.

Essa pergunta merece respeito. Porque a necessidade de vínculo não é uma fraqueza a ultrapassar. Somos seres relacionais. Precisamos de reconhecimento, pertença, intimidade, reciprocidade e ligação. Não há maturidade psicológica que nos torne completamente autossuficientes.

O objetivo deste texto, portanto, não é ensinar ninguém a precisar menos de pessoas. É algo bastante diferente: ajudar-nos a perceber como podemos desejar profundamente relações e, ao mesmo tempo, sem percebermos, dificultar algumas das condições necessárias para que elas cresçam.


O mundo relacional também mudou

E seria intelectualmente desonesto transformar tudo isto num problema individual. Há características do mundo relacional contemporâneo que tornam algumas formas de vínculo particularmente difíceis. Nunca tivemos tantas possibilidades de contacto e, paradoxalmente, podemos sentir enorme dificuldade em sermos verdadeiramente encontrados. Há matches. Mensagens. Seguidores. Conversas. Encontros. Sexo. Convites. Há sempre aparentemente alguém a seguir.

E, no entanto, encontrar alguém disponível para permanecer, descobrir, negociar, frustrar-se, reparar e construir pode parecer extraordinariamente difícil. Encontramos pessoas que querem proximidade, mas desaparecem quando ela começa a acontecer. Pessoas que dizem desejar profundidade, mas evitam precisamente as conversas que poderiam produzi-la. Pessoas que querem ser compreendidas, mas demonstram pouca curiosidade pelo mundo interno do Outro. Pessoas que confundem desconforto com incompatibilidade. Pessoas que desejam relações extraordinárias, mas oferecem uma disponibilidade relacional mínima. Pessoas tão preocupadas em não serem magoadas que já chegam às relações preparadas para sair delas.

Portanto, sim: há razões para estarmos cansados/as. Há razões para estarmos desiludidos/as. Há razões para algumas pessoas sentirem que encontrar relações significativas se tornou extraordinariamente difícil. Não precisamos de psicologizar individualmente uma experiência que também é cultural e relacional. Mas existe uma pergunta mais interessante do que decidir se “o problema sou eu” ou “o problema são os outros”:

O que acontece quando as minhas feridas, expectativas e estratégias de proteção encontram as feridas, expectativas e estratégias de proteção de outra pessoa?

É aí que começam as relações reais. E é aí que começam as verdades relacionais difíceis de engolir.


Antes de continuar: algumas perguntas para ti

Não tentes responder “corretamente”. Repara antes na pergunta que provoca mais desconforto, resistência, tristeza ou vontade de te justificares….

1. Quando uma relação não resulta, qual é a primeira explicação que aparece na tua cabeça? “Há alguma coisa de errado comigo”? “As pessoas são todas iguais”? “Nunca vou encontrar ninguém”? “Escolho sempre mal”?

2. Quando alguém não te escolhe, consegues separar essa experiência do teu valor pessoal? Ou uma rejeição concreta transforma-se rapidamente em “ninguém me vai escolher”?

3. O que é que a ausência de relações parece dizer sobre ti?

4. Qual é a característica tua que mais temes que torne difícil alguém amar-te?

5. Alguma vez tentaste modificar partes importantes de ti para te tornares mais fácil de escolher? O quê?

6. Quando vês outras pessoas em relações, comparas a realidade delas com a tua, ou a aparência da vida delas com a parte mais dolorosa da tua?

7. Está cansado/a das pessoas que encontras ou começaste a ficar cansada de ti próprio/a por continuares a não encontrar aquilo que procuras?

8. Em que momento a tristeza por estares sozinho/a se transforma em vergonha por estares sozinho/a?

9. Quando pensas “eu tenho tanto para dar”, consegues também perguntar: “como é estar numa relação comigo?”

10. Quais são as coisas que esperas que alguém faça espontaneamente para poderes acreditar que gosta de ti?

11. Quando essas coisas não acontecem, perguntas ao Outro, observas durante algum tempo e procuras compreendê-lo, ou começas imediatamente a construir uma explicação?

12. Quantas relações poderão ter terminado porque eram realmente incompatíveis, e quantas nunca chegaram a desenvolver-se o suficiente para que pudesses descobrir se eram?

13. Estás à procura de alguém que te conheça, ou de alguém que rapidamente confirme aquilo de que precisas para te sentires seguro/a?

14. Quanto tempo concedes a uma pessoa para deixar de ser uma primeira impressão e começar a tornar-se uma pessoa real?

15. E talvez a pergunta mais difícil:

Se desejas tanto ter mais pessoas na tua vida, que coisas fazes para as aproximar, e que coisas fazes, simultaneamente, para não correres o risco de precisares verdadeiramente delas?

Não é necessário gostar das respostas. Aliás, este texto começa precisamente aí. Nas verdades relacionais difíceis de engolir.

O Outro começa onde acaba a nossa fantasia sobre ele

Talvez uma das verdades relacionais mais difíceis de aceitar seja esta: nós nunca encontramos uma pessoa completamente “em branco”. Encontramo-la através daquilo que desejamos, tememos, reconhecemos e esperamos. Antes de sabermos suficientemente quem alguém é, já começámos inevitavelmente a construir hipóteses sobre essa pessoa.

É uma característica normal da cognição humana. Precisamos de organizar rapidamente informação incompleta. Uma pessoa parece calorosa e inferimos disponibilidade, parece distante e inferimos desinteresse, fala connosco durante horas e imaginamos profundidade, demonstra entusiasmo e começamos a antecipar continuidade. O problema não está em formular hipóteses; dificilmente poderíamos relacionar-nos sem elas. O problema começa quando esquecemos que são hipóteses.

É então possível que deixemos de responder apenas à pessoa que temos diante de nós e comecemos a responder também à pessoa que imaginámos. Ao que poderá vir a ser, ao que gostaríamos que fosse, ao lugar que poderia ocupar na nossa vida, à forma como imaginamos que nos trataria se a relação evoluísse. E quanto maior for a nossa necessidade de ligação, mais sedutora pode tornar-se essa antecipação, porque uma pessoa recém-conhecida deixa de representar apenas aquilo que é: passa também a representar tudo aquilo que ainda pode vir a ser.

A possibilidade tem uma vantagem extraordinária sobre a realidade: ainda não teve tempo de nos contrariar.

Ainda não chegou atrasada, ainda não precisou de demasiado espaço, ainda não revelou hábitos irritantes, ainda não discordou de nós numa questão importante, ainda não teve dificuldade em compreender uma necessidade nossa, ainda não demonstrou um ritmo relacional diferente, ainda não falhou um gesto que para nós seria óbvio. Enquanto existe sobretudo como possibilidade, podemos preencher os espaços desconhecidos com características compatíveis com aquilo que desejamos.

Mas uma relação só começa verdadeiramente quando a pessoa deixa de ser uma possibilidade e começa a tornar-se real.

E uma pessoa real traz consigo uma inconveniência inevitável: não foi escrita por nós.

Tem uma história anterior à nossa, necessidades que não foram desenhadas para encaixar nas nossas, formas próprias de demonstrar afeto, zonas cegas, limites, prioridades, ritmos, desejos, contradições e liberdade. Pode gostar de nós e não gostar de nós exatamente como gostaríamos. Pode querer-nos e não querer a mesma quantidade de proximidade. Pode ser carinhosa sem ser particularmente verbal, interessada sem ser intensa, profunda sem se revelar imediatamente, autónoma sem ser distante. Pode até possuir muitas das qualidades que procurávamos e, ainda assim, não querer construir connosco aquilo que nós gostaríamos de construir.

É neste ponto que a desidealização se torna uma tarefa relacional fundamental. E desidealizar não significa descobrir que alguém é pior do que julgávamos. Significa uma coisa bastante mais sofisticada: permitir que o conhecimento substitua progressivamente a imaginação.

Há sempre um pequeno luto nisso. Perdemos a pessoa que poderia ter sido, a relação que imaginámos, a história que já começávamos a escrever. Mas esse luto é frequentemente a condição necessária para podermos finalmente fazer uma pergunta muito mais adulta: “Agora que começo a perceber quem tu realmente és, quero aquilo que existe entre nós?”

A alternativa é muito mais dolorosa. É continuar a relacionarmo-nos com a diferença entre a pessoa real e a pessoa imaginada, tentando persistentemente diminuir essa distância. “Se fosses um pouco mais…”, “Se percebesses que…”, “Se tivesses mais iniciativa…”, “Se conseguisses mostrar…”, “Se realmente gostasses de mim, talvez…”. A relação deixa então de ser apenas um encontro e transforma-se, silenciosamente, num projeto de correção.

É aqui que pode surgir aquilo a que, sem transformar a palavra num diagnóstico, podemos chamar um veio narcísico da expectativa relacional. Não se trata necessariamente de grandiosidade, falta de empatia ou perturbação narcísica da personalidade. Trata-se de uma dificuldade muito mais comum e humana: reconhecer plenamente que o Outro é verdadeiramente Outro, que não existe para corresponder à nossa narrativa e que o facto de determinada versão dele nos fazer mais felizes não cria nele a obrigação de se tornar essa versão.

Podemos querer uma pessoa mais disponível. Podemos precisar de mais iniciativa. Podemos desejar maior demonstração afetiva. Podemos preferir alguém mais espontâneo, mais curioso, mais comunicativo. Tudo isso é legítimo. O salto problemático acontece quando “eu gostaria que fosses assim” se transforma silenciosamente em “tu deverias ser assim”.

E talvez uma parte considerável do sofrimento relacional comece precisamente nessa passagem quase invisível.

Para refletir

1. Quando gostas de alguém, quanto daquilo que sentes pertence à pessoa que já conheces e quanto pertence àquilo que imaginas que ela poderá vir a ser?

2. Há alguma relação na tua vida em que estejas mais ligado/a ao potencial de uma pessoa do que àquilo que ela consistentemente te oferece?

3. Quando alguém te desilude, consegues atualizar a imagem que tinhas dessa pessoa ou começas imediatamente a tentar fazê-la corresponder à imagem anterior?

4. Se determinada pessoa nunca mudasse precisamente naquilo que mais gostarias que mudasse, continuarias a querer a relação?

5. Estás a tentar conhecer alguém ou, sem perceberes, a tentar descobrir se essa pessoa consegue representar o papel que já escreveste para ela?


Quando “eu gostaria” se transforma em “tu devias”

As relações estão inevitavelmente cheias de expectativas. Esperamos respeito, interesse, consideração, reciprocidade, cuidado. Temos preferências legítimas sobre a frequência de contacto, intimidade, compromisso, sexualidade, disponibilidade, comunicação. Uma relação sem expectativas não seria necessariamente mais madura; provavelmente seria apenas uma relação sem investimento suficiente para que alguma coisa nos importasse.

O problema, portanto, não são as expectativas.

É aquilo que fazemos com elas.

Muitas expectativas relacionais começam por ser desejos perfeitamente razoáveis e transformam-se gradualmente em contratos psicológicos que o Outro nunca soube que assinou. “Se eu me lembro das coisas importantes para ti, tu devias lembrar-te das minhas”, “Se eu procuro quando tenho saudades, tu procurarias se também tivesses”, “Se eu arranjo tempo para ti, arranjarias tempo para mim se eu fosse suficientemente importante”, “Se eu faria isto por ti, tu farias isto por mim se gostasses realmente de mim”.

É aqui que uma frase aparentemente romântica pode tornar-se epistemologicamente perigosa: “Eu por ti faria isso.”

Porque talvez fizesses.

Mas isso diz-nos, antes de mais, alguma coisa sobre ti.

Sobre a tua maneira de cuidar, a tua história, os gestos aos quais atribuis significado, aquilo que aprendeste a fazer quando gostas de alguém. Não constitui automaticamente um instrumento universal de medição do afeto.

Quando nos utilizamos como régua para medir os outros, a diferença torna-se facilmente evidência. Se eu mando mensagem quando tenho saudades e tu não mandaste, concluo que não tiveste saudades. Se eu procuro quando gosto e tu não procuraste, concluo que não gostas. Se eu organizaria o meu dia para te ver e tu não o fizeste, concluo que não sou importante.

Repara no salto: começámos com um comportamento observável e terminámos numa certeza sobre a interioridade do Outro.

É precisamente aqui que muitas relações começam a ser vividas através de contratos implícitos. E a característica mais cruel de um contrato implícito é que podemos castigar alguém por não cumprir uma cláusula que nunca lhe comunicámos.

Por vezes fazemos isso através de confronto, mas muitas vezes de formas muito mais discretas. Retiramos iniciativa para ver se a pessoa repara, deixamos de escrever para testar se nos procura, ficamos frios para verificar se pergunta o que se passa, recusamo-nos a pedir porque “se tenho de pedir, já não tem o mesmo valor”. O Outro deixa de estar apenas numa relação connosco; sem saber, está também a realizar exames.

É neste contexto que a fantasia romântica de espontaneidade pode tornar-se particularmente destrutiva. Existe a ideia de que aquilo que precisa de ser explicado perde autenticidade. Se tive de dizer que gosto de receber uma mensagem de manhã, a mensagem já não vale. Se tive de explicar que determinada situação me deixa inseguro, o cuidado posterior já não conta. Se tive de pedir mais iniciativa, essa iniciativa deixa de ser “verdadeira”.

Mas intimidade não é telepatia.

Uma pessoa não nasce a conhecer o nosso sistema nervoso, a nossa história, os significados que atribuímos aos gestos, aquilo que nos tranquiliza, aquilo que nos faz sentir escolhidos ou aquilo que desperta antigas inseguranças. Intimidade é precisamente o processo pelo qual duas pessoas vão aprendendo essas coisas uma sobre a outra e verificando o que fazem com aquilo que aprendem.

Há uma diferença enorme entre “não adivinhaste aquilo de que eu precisava” e “eu expliquei-te repetidamente aquilo de que precisava e tu continuaste a ignorá-lo”. A primeira frase descreve os limites normais entre duas mentes diferentes. A segunda pode começar a revelar uma dificuldade relacional importante.

O critério mais útil não é, portanto, perguntar se o Outro adivinhou.

É observar o que faz depois de saber.

E esta distinção protege-nos nos dois sentidos: impede-nos de exigir telepatia, mas também impede que a linguagem das “diferenças” seja usada para desculpar negligência persistente.

Aceitar que alguém é diferente não significa aceitar tudo.

Significa apenas reconhecer que a solução para uma diferença não é declarar imediatamente que uma das pessoas está errada.

Para refletir

1. Que coisas esperas que alguém faça espontaneamente para poderes acreditar que gosta de ti?

2. Quantas dessas expectativas foram realmente comunicadas e quantas existem apenas como regras internas tuas?

3. Quando pensas “eu faria isto por ti”, estás a descrever a tua forma de gostar ou a definir aquilo que o amor do Outro deveria obrigatoriamente parecer?

4. Há necessidades que te recusas a verbalizar porque acreditas que pedir lhes retiraria valor?

5. Nas tuas relações, consegues distinguir “esta pessoa não adivinhou” de “esta pessoa sabe e continua a não se importar”?


A vida não nos deve a pessoa que achamos merecer

Existe uma versão ainda mais difícil desta questão. Podemos reconhecer intelectualmente que as pessoas são diferentes e, apesar disso, continuar a sentir uma espécie de injustiça quando a realidade relacional não corresponde àquilo que desejávamos.

“Depois de tudo aquilo que já passei, merecia alguém que…”, “Eu tenho tanto para dar.”, “Não estou a pedir assim tanto., “Porque é que aparecem sempre pessoas assim?”, “Eu mereço melhor”.

A palavra merecer precisa aqui de ser tratada com cuidado, porque pode representar uma conquista psicológica extraordinariamente importante. Para alguém habituado a aceitar desrespeito, violência, negligência ou migalhas relacionais, conseguir dizer “eu mereço melhor” pode ser um momento decisivo de recuperação da própria dignidade.

O problema não está aí.

O problema começa quando merecimento pessoal se transforma numa obrigação imposta à realidade.

Eu posso merecer uma relação respeitosa sem que determinada pessoa seja obrigada a construí-la comigo. Posso merecer reciprocidade e apaixonar-me por alguém que não me corresponde. Posso ter imenso amor para oferecer e encontrar alguém que não o quer receber. Posso ter feito anos de psicoterapia, aprendido a comunicar, desenvolvido segurança e continuar sem receber da vida, naquele momento, a relação que gostaria de ter.

A vida relacional não funciona segundo um princípio de compensação moral.

Não recebemos uma relação extraordinária como prémio por termos sofrido bastante. Não nos aparece necessariamente uma pessoa emocionalmente disponível porque “já fizemos o nosso trabalho”. O amor não é remuneração pelo desenvolvimento pessoal.

Esta ideia é dolorosa porque confronta uma fantasia de justiça profundamente humana. Gostaríamos que o esforço produzisse proporcionalmente recompensa, que quem ama bem fosse bem amado, que quem foi magoado recebesse reparação, que quem oferece muito encontrasse alguém capaz de oferecer na mesma medida.

Às vezes acontece.

Mas não existe contrato.

É precisamente por isso que uma das formas mais subtis de sofrimento relacional pode parecer uma birra dirigida à própria realidade. Não no sentido pejorativo de infantilizar a dor, mas no sentido psicológico de recusarmos interiormente aquilo que existe porque sentimos que não era aquilo que nos devia ter acontecido. “Não era suposto ser assim”, “Eu merecia outra coisa”, “Depois de tudo, isto não é justo”.

E talvez não seja justo.

Mas a injustiça de uma experiência não cria automaticamente a realidade alternativa que gostaríamos que existisse.

Maturidade relacional exige então uma operação particularmente difícil: transformar merecimento em critério de escolha, e não em reivindicação sobre o Outro.

“Eu mereço uma relação em que exista reciprocidade” pode significar: por isso, não vou permanecer indefinidamente numa relação onde ela não existe. Não precisa de significar: por isso, tu tens de aprender a dar-me reciprocidade.

“Eu mereço ser amado desta maneira” pode significar: procurarei pessoas com quem esta forma de relação seja possível. Não significa necessariamente: se me amas, tens de aprender a amar-me exatamente assim.

Há aqui uma mudança pequena na linguagem e enorme na posição psicológica. Na primeira, reconhecemos a nossa dignidade e a liberdade do Outro. Na segunda, a nossa dignidade começa a depender de conseguirmos que o Outro se transforme.

Talvez seja esta uma das verdades mais difíceis de engolir:

eu posso merecer mais e, ainda assim, a outra pessoa não me dever esse “mais”.

Cabe-me então decidir o que faço perante aquilo que existe.

Para refletir

1. Quando dizes “eu mereço mais”, isso ajuda-te a escolher melhor ou mantém-te a tentar convencer alguém a oferecer-te aquilo que não consegue ou não quer dar?

2. Existe alguma pessoa de quem esperas, secretamente, uma espécie de compensação por sofrimentos que ela própria não causou?

3. Que expectativas tuas são necessidades importantes e quais adquiriram a forma de uma dívida que acreditas que o Outro tem para contigo?

4. Consegues aceitar que uma pessoa possa não ser aquilo de que precisas sem precisar de concluir que ela é uma má pessoa?

5. E consegues aceitar que merecer uma determinada forma de amor te dá o direito de a procurar, mas não o poder de obrigar alguém concreto a oferecê-la?


“Nunca sei se gostam mesmo de mim”: quando a incerteza se torna intolerável

Se não podemos controlar quem o Outro é e não podemos obrigá-lo a corresponder às nossas expectativas, resta uma dificuldade inevitável: nunca conseguimos conhecer completamente aquilo que se passa dentro dele.

Podemos perguntar, observar consistência, reparar na forma como nos trata, escutar aquilo que diz, verificar se existe correspondência entre palavras e comportamentos. Tudo isso nos fornece informação. Mas nenhuma relação elimina completamente a incerteza.

É precisamente aqui que algumas pessoas começam a sofrer.

Um atraso numa mensagem deixa de ser apenas um atraso, uma mudança de tom deixa de ser apenas uma mudança de tom, um dia com menos contacto deixa de ser apenas um dia diferente. A mente tenta rapidamente transformar ambiguidade em significado: “Está a afastar-se”, “Perdeu o interesse”, “Fiz alguma coisa”, “Já não sente o mesmo”.

Não fazemos isto necessariamente porque somos irracionais. Fazemo-lo porque a mente prefere frequentemente uma explicação à ausência de explicação, sobretudo quando aquilo que está em jogo é emocionalmente importante.

Para uma pessoa particularmente sensível à rejeição, a ambiguidade pode ser difícil de sustentar. A investigação sobre sensibilidade à rejeição sugere precisamente que algumas pessoas entram nas situações interpessoais com maior expectativa de rejeição, identificam-na mais rapidamente em sinais ambíguos e reagem de forma mais intensa quando acreditam que ela está a acontecer.

Mas existe aqui uma distinção essencial: emoção não é evidência.

Sentir medo de estar a ser abandonado/a não prova abandono.

Sentir insegurança não prova que a relação é insegura.

Sentir ciúme não prova traição.

Sentir intensidade não prova amor.

Sentir calma não prova compatibilidade.

Sentir tédio não prova ausência de vínculo.

As emoções são acontecimentos reais. A interpretação que lhes atribuímos continua a precisar de ser examinada.

Isto não significa desconfiarmos sistematicamente de nós próprios. O objetivo não é ensinar alguém a ignorar sinais reais de inconsistência, manipulação ou desinteresse. É criar um pequeno espaço entre “estou a sentir isto” e “portanto, isto significa aquilo”.

É nesse espaço que aparece a curiosidade.

“Que outras explicações existem?”

“O que sei realmente?”

“O que estou a inferir?”

“Há um padrão ou um episódio?”

“Perguntei?”

“Estou a reagir àquilo que esta pessoa está a fazer ou a algo que já conheço de relações anteriores?”

Não precisamos de permanecer indefinidamente na dúvida. Precisamos apenas de não transformar cada dúvida numa certeza prematura.

Porque, quando a certeza negativa chega demasiado depressa, pode acontecer algo ainda mais importante: começamos a agir a partir dela.

E é aí que a nossa interpretação entra na relação.

Para refletir

1. Quando alguém importante se comporta de forma ambígua, quanto tempo consegues permanecer no “não sei”?

2. Que comportamentos transformas mais rapidamente em provas de desinteresse ou rejeição?

3. Quando sentes ansiedade numa relação, costumas perguntar “o que estou a sentir?” Ou saltas imediatamente para “o que isto prova sobre o Outro?”

4. Quantas vezes procuras informação diretamente e quantas vezes tentas obtê-la através de interpretação?

5. Se tivesses de separar aquilo que sabes daquilo que receias numa relação atual, o que ficaria em cada lado?


O medo de ser rejeitado/a pode começar a escrever a relação antes da rejeição acontecer

A sensibilidade à rejeição torna-se especialmente importante porque não altera apenas aquilo que sentimos. Pode alterar aquilo que fazemos.

Se eu acredito que mostrar interesse aumenta o risco de ser magoado, posso começar a gerir cuidadosamente a quantidade de interesse que mostro. Espero que escrevas primeiro, escondo entusiasmo, não proponho o próximo encontro, demoro a responder, finjo menor investimento, não digo que tive saudades, não faço uma pergunta cuja resposta receio conhecer.

Cada uma destas estratégias tem uma lógica compreensível: se me exponho menos, dói menos se não fores ao meu encontro.

Mas as relações têm uma característica que torna esta proteção paradoxal: o Outro também está a tentar perceber-nos.

Ele não vê o nosso medo. Vê comportamento.

Não vê “estou muito interessado, mas tenho medo de parecer demasiado interessado”. Vê menos iniciativa.

Não vê “estou à espera de um sinal porque preciso de me sentir seguro”. Vê distância.

Não vê “estou a proteger-me porque já fui rejeitado”. Pode ver desinteresse.

Começa então um circuito relacional particularmente cruel. Tenho medo de não ser escolhido, mostro menos interesse para reduzir a exposição, o Outro recebe menos sinais de que é desejado, pode investir menos, observo a redução do investimento e concluo: “Eu sabia.”

Não significa que tenhamos causado a rejeição. Esta ideia precisa de ser afirmada com muita clareza. O Outro continua a possuir desejos, limitações e liberdade próprios. E a investigação mais recente lembra-nos que a sensibilidade à rejeição não produz inevitavelmente os mesmos resultados em todas as relações.

Mas significa que a proteção também comunica.

O nosso silêncio comunica.

A nossa retirada comunica.

A ausência de iniciativa comunica.

A frieza deliberada comunica.

Até o teste comunica alguma coisa, embora raramente aquilo que gostaríamos.

É por isso que algumas estratégias de segurança podem tornar-se comportamentos de segurança que impedem a obtenção de nova informação. Se nunca demonstro claramente interesse, nunca saberei inteiramente como aquela pessoa responderia a um interesse claro. Se nunca peço aquilo de que preciso, não descubro como responde quando conhece a minha necessidade. Se abandono ao primeiro sinal de risco, reduzo a possibilidade de descobrir se existia capacidade de reparação.

O paradoxo é profundo: para descobrir se uma relação pode tornar-se segura, precisamos de realizar pequenos comportamentos que não são completamente seguros.

Mostrar. Pedir. Convidar. Dizer. Perguntar. Esperar uma resposta.

É por isso que coragem relacional não significa ter a certeza de que seremos escolhidos.

Significa conseguir mostrar suficientemente que estamos a escolher antes de sabermos a resposta.

Para refletir

1. O que fazes para esconder interesse quando tens medo de que alguém não corresponda?

2. Se uma pessoa observasse apenas o teu comportamento, sem conhecer o teu mundo interno, perceberia claramente que gostas dela?

3. Que testes costumas fazer para descobrir se alguém se importa contigo e o que aconteceria se substituísses um desses testes por uma pergunta ou pedido direto?

4. Alguma vez interpretaste como desinteresse uma distância que pode ter surgido em resposta à tua própria distância?

5. Se soubesses que um “não” não diminuiria o teu valor, que risco relacional pequeno estarias mais disponível para correr?


“Não quero criar expectativas”: a tentativa de não precisar

Existe uma versão ainda mais sofisticada desta proteção, precisamente porque parece representar maturidade emocional: “Não quero criar expectativas.”

A frase pode significar algo muito saudável. Pode significar: “Quero conhecer esta pessoa sem decidir antecipadamente aquilo que isto será.” Nesse sentido, reduzir expectativas significa aumentar contacto com a realidade.

Mas também pode significar uma coisa bastante diferente: “Não quero desejar demasiado porque não quero dar a esta pessoa o poder de me desiludir.”

Aqui já não estamos apenas a desistir da fantasia.

Estamos a tentar desistir antecipadamente da importância.

Existe uma ideia culturalmente sedutora de que a pessoa psicologicamente saudável é aquela que não precisa de ninguém, não cria expectativas, não se apega demasiado, mantém sempre a sua independência e consegue ver qualquer pessoa partir sem grande perturbação.

Mas isso não descreve necessariamente segurança.

Pode descrever invulnerabilidade.

E autonomia e invulnerabilidade não são a mesma coisa.

Autonomia permite-nos continuar a existir como pessoa inteira dentro de uma relação. Invulnerabilidade exige que a relação nunca adquira poder suficiente para nos afetar profundamente.

Só que intimidade significa precisamente permitir que alguém adquira importância.

Se gosto de ti, aquilo que fazes pode alegrar-me e magoar-me. Se confio em ti, podes desiludir-me. Se te deixo tornar importante, a tua ausência poderá fazer-me falta.

Não existe uma forma de construir vínculo significativo garantindo simultaneamente que a perda desse vínculo será emocionalmente irrelevante.

A dependência também precisa, por isso, de ser pensada com maior nuance. Existe dependência destrutiva, em que o Outro se torna praticamente responsável pela nossa identidade, autoestima ou regulação emocional. Mas existe também interdependência: a capacidade de permanecermos pessoas diferenciadas e, ainda assim, permitirmos que outras pessoas sejam fontes reais de apoio, conforto, reconhecimento e pertença.

Talvez maturidade não seja dizer: “Não preciso de ti” Nem: “Sem ti não existo”

Talvez seja conseguir dizer: “Eu existo sem ti. Mas, porque te deixei entrar, tu importas-me.”

Isso implica risco. E talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que o risco não é uma falha da intimidade.

É o preço de entrada.

Para refletir

1. Quando dizes “não quero criar expectativas”, estás a tentar não fantasiar ou a tentar não sentir?

2. O que significa para ti precisar emocionalmente de alguém: proximidade, dependência, fraqueza, perigo?

3. Há pessoas que manténs suficientemente perto para não te sentires sozinho/a, mas suficientemente longe para nunca poderes depender verdadeiramente delas?

4. Em que momento a tua autonomia se transforma numa forma de impedir que alguém adquira importância?

5. Consegues imaginar uma relação em que continues inteiro/a sem precisares de permanecer intocável?


A pré-desilusão: quando o futuro chega antes da experiência

Mas há pessoas que nem sequer chegam ao ponto de precisar de se proteger de uma relação já existente. A proteção começa antes.

“Não vai valer a pena”, “Já sei que não vou gostar”, “Vai ser aborrecido”, “Vou ter de fazer conversa”, “Não vai acontecer nada de especial”, “Não compensa o esforço”.

É possível desistirmos de experiências não porque correram mal, mas porque já as experimentámos mentalmente e não gostámos do resultado.

Podemos chamar a isto pré-desilusão: a antecipação de uma experiência negativa suficientemente convincente para produzir no presente o desinvestimento que normalmente surgiria depois da experiência.

A capacidade de antecipar é adaptativa. Precisamos dela para tomar decisões. Mas a investigação sobre previsão afetiva mostra que não somos observadores perfeitos do nosso futuro emocional. Em diferentes contextos, podemos sobrestimar a intensidade ou duração daquilo que sentiremos, subestimar a nossa capacidade de adaptação ou não prever adequadamente a influência de fatores que só se tornarão visíveis quando a experiência acontecer.

Nas relações, isto deve ser aplicado com prudência. Não significa que devamos ignorar intuição ou experiência passada. Significa apenas que uma previsão continua a ser uma previsão, mesmo quando é emocionalmente convincente.

E existe um problema adicional. Quando evitamos sistematicamente as experiências que prevemos serem pouco gratificantes, retiramos à realidade a oportunidade de contrariar a previsão.

A crença torna-se quase impossível de falsificar.

“Eu sabia que não valia a pena”. Mas não fomos.

“Eu sabia que aquela pessoa não tinha nada a ver comigo”. Mas não a conhecemos.

“Eu sabia que aquele grupo não era para mim”. Mas estivemos vinte minutos e nunca regressámos.

É assim que a antecipação pode construir um circuito fechado: experiências anteriores produzem expectativas, expectativas orientam evitamento, o evitamento reduz novas experiências e a ausência de experiências discrepantes preserva as expectativas antigas.

O antídoto não é o pensamento positivo.

Não precisamos de substituir “vai ser péssimo” por “vai ser maravilhoso”.

Há uma frase intelectualmente muito mais honesta e psicologicamente muito mais aberta:

“Eu ainda não sei.”

Talvez seja aborrecido. Talvez seja interessante. Talvez não aconteça nada. Talvez conheçamos alguém. Talvez queiramos ir embora cedo. Talvez descubramos uma parte de nós que só aparece fora da rotina.

“Não sei” não promete um bom resultado. Promete apenas que a experiência terá direito a existir antes do veredicto.

Para refletir

1. Quantas coisas tens recusado porque não valem a pena e quantas sabes realmente que não valeriam?

2. Quais são as previsões que aparecem imediatamente quando surge uma oportunidade social nova?

3. O que precisaria de estar garantido antecipadamente para considerares que vale a pena sair, experimentar ou conhecer alguém?

4. Quantas experiências importantes da tua vida começaram sem parecer particularmente promissoras?

5. Em que área da tua vida precisarias menos de dizer “vai correr bem” e mais de conseguir dizer “ainda não sei”?


Quando ficar é o estado natural e sair precisa de justificar-se

A pré-desilusão pode ser ainda mais poderosa quando se apoia numa aprendizagem antiga: o conhecido é seguro; o mundo precisa de provar que merece confiança.

Não precisamos de ter crescido numa família explicitamente proibitiva para aprender isto. Algumas famílias organizam-se de forma mais fechada, cautelosa ou ansiosa. Existe afeto, por vezes muito afeto, mas o exterior é frequentemente descrito através do risco. Os outros podem magoar, as coisas podem correr mal, é melhor prevenir, é mais seguro ficar, a casa é o lugar onde sabemos quem somos e o que esperar.

Estas aprendizagens não são necessariamente transmitidas por frases diretas. Podem ser incorporadas através da forma como os adultos reagem à novidade, à autonomia, aos desconhecidos, às viagens, à exploração, ao risco ou simplesmente à saída do espaço familiar.

Mais tarde, o padrão pode sobreviver sem se apresentar como medo.

Pode apresentar-se como racionalidade. “Estou cansado/a”, “É caro”, “Não compensa”, “É longe”, “Não me apetece”, “Também não vai acontecer nada”.

E, novamente, todas estas frases podem ser verdadeiras. O que interessa observar é a assimetria: ficar precisa de justificar-se tanto quanto sair?

Se permanecer em casa é o ponto de partida, não precisa de apresentar benefícios extraordinários. Basta ser confortável. Mas, se sair é psicologicamente entendido como exceção, talvez tenha de demonstrar antecipadamente que será suficientemente interessante para compensar esforço, dinheiro, transição, desconforto e incerteza.

O mundo fica então com um ónus impossível: tem de provar antecipadamente que valerá a pena antes de lhe darmos oportunidade de valer a pena.

O custo desta estratégia raramente é dramático. É precisamente por isso que pode passar despercebido.

É cumulativo.

São os convites recusados, as pessoas que nunca conhecemos, as viagens que ficaram para outra altura, os grupos a que nunca regressámos, os cafés que não aconteceram, as relações que nunca tiveram oportunidade de começar.

Não significa que devamos dizer sim a tudo.

Significa reconhecer que ficar também é uma escolha e também tem custos.

A diferença é que os custos de sair são imediatos e visíveis, enquanto os custos de permanecer são frequentemente hipotéticos e silenciosos.

Nunca saberemos quem não conhecemos.

Para refletir

1. Na tua vida, ficar é uma decisão ou é simplesmente aquilo que acontece quando nenhuma alternativa consegue justificar-se suficientemente?

2. Que ideia sobre “o mundo lá fora” aprendeste nas relações em que cresceste?

3. Quando uma experiência nova te parece cansativa antes de começar, quanto desse cansaço pertence à atividade e quanto pertence à transição para o desconhecido?

4. Que custos de permanecer tens ignorado porque são menos visíveis do que os custos de sair?

5. Se o mundo não tivesse de te prometer nada extraordinário, que experiência suficientemente boa aceitarias viver?


Suponhamos, porém, que conseguimos atravessar a porta. Conhecemos alguém. Vamos ao encontro. Há interesse. E surge outra dificuldade: podemos esperar demasiado, demasiado cedo.

Queremos iniciativa, reciprocidade, profundidade, estimulação, consistência, vulnerabilidade, espontaneidade, desejo, cuidado, comunicação, segurança emocional. Nenhuma destas coisas é absurda. Muitas são componentes importantes de relações satisfatórias.

Mas nem todas podem ser avaliadas adequadamente no mesmo momento.

Existe uma diferença entre características relativamente observáveis desde cedo e propriedades que emergem da própria relação.

A intimidade é um exemplo fundamental. A investigação sobre intimidade interpessoal sugere que ela se desenvolve através de um processo de autorrevelação, resposta do Outro e perceção de responsividade. Revelamos alguma coisa, observamos como é recebida, sentimos maior ou menor segurança, revelamos um pouco mais, aprendemos o mundo do Outro, acumulamos experiências de sermos compreendidos, validados e cuidados.

Ou seja: a intimidade não está simplesmente escondida dentro de alguém à espera de ser detetada por nós. É parcialmente coconstruída.

Isto tem implicações importantes.

Uma pessoa pode ter enorme capacidade de profundidade e não ser profunda connosco imediatamente. Pode ser afetuosa e precisar de confiança antes de o demonstrar. Pode ser espontânea quando se sente segura e bastante reservada num primeiro encontro. Pode ser extremamente disponível numa relação consolidada e cautelosa enquanto ainda não sabe aquilo que existe entre ambos.

E há ainda uma diferença importante que facilmente esquecemos: nem todas as pessoas chegam ao início de uma relação a partir do mesmo ponto de partida.

Há quem, quando sente interesse ou reconhece potencial numa pessoa, chegue relativamente “pronto”. A curiosidade aparece cedo. A atenção também. Faz perguntas, lembra-se do que o Outro contou, toma iniciativa, propõe encontros, mantém a conversa, oferece disponibilidade emocional, começa rapidamente a integrar aquela pessoa nos seus pensamentos e, por vezes, até nos seus planos. Para essa pessoa, estes comportamentos não representam necessariamente um nível extraordinário de compromisso; são simplesmente a sua maneira natural de entrar numa relação.

Outras pessoas começam muito mais devagar. Precisam de repetição antes da confiança, de familiaridade antes da vulnerabilidade, de segurança antes da iniciativa, de perceber melhor o lugar que aquela relação poderá ocupar antes de investirem emocionalmente nela.

Nenhum destes ritmos é, por si só, superior ao outro.

O problema começa quando tomamos o nosso ponto de partida como medida do ponto a que o Outro já deveria ter chegado.

Se eu entro numa relação a dar aquilo a que, metaforicamente, poderíamos chamar “80”, e o Outro começa por dar “20”, a diferença pode ser sentida imediatamente como ausência de reciprocidade.

“Outra vez sou eu que mando mensagem”

“Outra vez sou eu que sugiro estarmos juntos/as”

“Sou sempre eu que faço perguntas”

“Se eu deixar de puxar pela conversa, isto morre”

“Claramente não está tão interessado/a como eu”

E essa conclusão pode estar correta. Há relações genuinamente unilaterais. Há pessoas que gostam de receber atenção sem terem grande intenção de a devolver. Há relações em que uma pessoa permanece indefinidamente responsável por criar contacto, proximidade e continuidade.

Mas 20 não significa sempre desinteresse.

Às vezes significa início.

Imaginemos duas pessoas. Uma chega aos primeiros encontros já nos “80”: pergunta, procura, propõe, revela-se, cuida, demonstra entusiasmo. A outra chega nos “20”. Responde, aceita convites, mostra algum interesse, mas ainda não toma muita iniciativa, não se revela tanto e não oferece a mesma intensidade.

Se olharmos apenas para a fotografia daquele momento, a relação parece profundamente desequilibrada: 80 de um lado, 20 do outro. Mas fotografias não mostram movimento.

A pergunta clinicamente mais interessante pode não ser apenas “Quanto é que esta pessoa me está a dar?”, mas também “Em que direção esta pessoa se está a mover?”

Porque alguém que começa nos 20, passa para 30, depois 50, depois 70, começa espontaneamente a procurar-nos, lembra-se de coisas que contámos, aumenta a vulnerabilidade, começa a propor encontros e vai progressivamente abrindo espaço para nós está a contar uma história relacional muito diferente de alguém que começa nos 20 e, seis meses depois, continua exatamente nos 20.

Uma relação não é apenas um nível de reciprocidade. É também uma trajetória de reciprocidade.

Isto obriga-nos a distinguir duas coisas que podem parecer iguais nas primeiras semanas: lentidão e indisponibilidade.

Uma pessoa lenta pode estar a aproximar-se.

Uma pessoa indisponível pode manter-nos permanentemente à distância.

A diferença nem sempre é visível num encontro. Torna-se visível no tempo.

É por isso que aprender a observar trajetórias pode ser tão importante quanto observar comportamentos. Não se trata de desculpar indefinidamente alguém que oferece pouco, nem de esperar meses ou anos por uma transformação que nunca chega. Trata-se de conceder tempo suficiente para descobrir se existe movimento relacional.

Para quem chega habitualmente aos “80”, isto pode ser particularmente difícil. Porque aquilo que oferece cedo parece-lhe tão natural que pode esquecer-se de que, para outra pessoa, chegar ao mesmo lugar implica atravessar várias etapas internas.

E então aparece uma expectativa implícita:

“Se eu consigo estar aqui desta maneira contigo, tu também deverias conseguir estar assim comigo.”

Mas talvez estejamos a comparar o nosso ponto de partida com o processo de construção da outra pessoa.

Há ainda outra possibilidade desconfortável. Quando somos nós quem chega habitualmente aos 80, podemos assumir que o nosso ritmo representa simplesmente maior capacidade de intimidade. Nem sempre. Em algumas circunstâncias, investir muito e muito cedo pode também funcionar como forma de procurar segurança rapidamente: se criarmos depressa proximidade, talvez consigamos reduzir a incerteza sobre aquilo que somos para o Outro. A intensidade inicial pode ser generosidade genuína e, simultaneamente, conter uma necessidade de confirmação. As duas coisas não se excluem.

Por isso, o objetivo não é estabelecer que quem dá 80 está “a dar demais” e quem dá 20 está “a fazer bem”. É perceber o significado relacional de cada ritmo.

Alguém pode começar nos 80 e permanecer disponível, respeitador e curioso. Alguém pode começar nos 80 e tornar-se ressentido quando não recebe imediatamente 80 de volta. Alguém pode começar nos 20 e construir progressivamente uma relação profunda. E alguém pode começar nos 20 porque, simplesmente, nunca pretende oferecer mais do que isso.

O tempo ajuda-nos a distinguir estas possibilidades.

É aqui que a questão do Full Package também ganha outra dimensão. Podemos não estar apenas à procura de alguém que possua todas as características que valorizamos. Podemos estar à procura de alguém que as apresente todas imediatamente.

Queremos que, nas primeiras semanas, já haja química, profundidade, humor, iniciativa, segurança, vulnerabilidade, desejo, curiosidade, autonomia, comunicação, consistência e cuidado.

A pessoa ainda está a tentar lembrar-se do nosso apelido e nós já estamos, interiormente, a avaliar a qualidade do seu potencial como parceiro de vida.

A exigência não está necessariamente nos critérios.

Pode estar na velocidade com que exigimos provas deles.

E isto é especialmente importante quando aquilo que procuramos numa relação é profundo. Quem deseja que os amigos se tornem família, quem procura grande intimidade emocional, quem valoriza lealdade, presença, interesse genuíno e vínculos duradouros não precisa necessariamente de baixar os seus padrões.

Pode precisar de dar aos padrões tempo para se tornarem observáveis.

Talvez eu não espere demasiado. Talvez espere demasiado cedo.

Quando avaliamos depressa, acontece ainda uma mudança subtil na nossa posição perante o Outro. Deixamos de perguntar predominantemente “Quem és?” e começamos a perguntar “Passas?”

A curiosidade transforma-se em seleção.

Cada interação fornece dados para uma avaliação. Mandou mensagem ou não mandou? Fez perguntas suficientes? Demonstrou entusiasmo? A conversa foi profunda? Houve química? Propôs novo encontro? Partilhou alguma vulnerabilidade?

E, pouco a pouco, podemos estar fisicamente num encontro enquanto psicologicamente estamos num júri de admissão.

Isto pode ser amplificado em contextos onde a consciência de alternativas é permanente. Se há sempre outra pessoa potencialmente a um gesto de distância, torna-se mais fácil comparar uma pessoa real, cujas limitações começamos a conhecer, com pessoas hipotéticas cujas limitações ainda desconhecemos.

Uma possibilidade não conhecida pode sempre parecer superior a uma pessoa conhecida porque ainda não teve oportunidade de falhar.

E aqui o 80/20 aparece de uma segunda maneira.

Podemos conhecer alguém que já nos oferece “80%” daquilo que valorizamos e começar rapidamente a concentrar a atenção nos “20%” que ainda não encontramos. Talvez exista cuidado, humor, atração, disponibilidade e interesse, mas ainda não exista grande profundidade. Talvez haja profundidade e desejo, mas pouca espontaneidade. Talvez haja segurança e consistência, mas a conversa ainda não tenha aquela cumplicidade que imaginávamos.

O problema é que, sobretudo no início, alguns desses 20% podem não estar ausentes; podem simplesmente ainda não ter tido tempo para existir.

Estamos então a contabilizar como falta aquilo que pode ser desenvolvimento.

E há uma diferença enorme entre dizer: “Esta pessoa não me dá isto” e dizer: “Esta pessoa ainda não me dá isto”.

O “ainda” não deve tornar-se uma desculpa infinita. Há relações em que o 20 nunca cresce. Há incompatibilidades que se tornam cada vez mais claras. Há pessoas que, depois de tempo, comunicação e oportunidades suficientes, continuam a oferecer uma disponibilidade incompatível com aquilo de que precisamos.

Mas retirar prematuramente o “ainda” pode transformar uma relação em formação numa relação já julgada.

Por outro lado, também podemos cometer o erro inverso: oferecer 80, receber 20 durante demasiado tempo e chamar “processo” àquilo que já é um padrão. É por isso que a metáfora só é útil quando introduzimos tempo e direção.

20 → 30 → 50 → 70 conta uma história.

20 → 20 → 20 → 20 conta outra.

E até 80 → 80 pode esconder problemas se ambos estiverem a construir uma intimidade acelerada que ainda não possui sustentação na realidade.

O objetivo, portanto, não é medir relações com percentagens. É substituir uma avaliação estática por uma pergunta dinâmica:

“Esta pessoa está progressivamente a aproximar-se de mim?”

Aproximação não significa tornar-se igual a nós. Nem atingir exatamente o nosso “80”. Significa haver sinais de construção: mais conhecimento, maior iniciativa, crescente confiança, mais espaço mútuo, alguma adaptação, responsividade, capacidade de conversar sobre diferenças e vontade observável de continuar.

Esta mudança de perspetiva pode ser particularmente importante para quem tem tendência a oferecer muito cedo. O trabalho não é tornar-se artificialmente frio, começar a responder mais tarde ou dar apenas 20 para “equilibrar”. Isso seria transformar espontaneidade em estratégia.

É conseguir oferecer aquilo que genuinamente queremos oferecer sem converter automaticamente a nossa oferta numa fasquia temporal para o Outro.

Dar porque queremos dar não é o mesmo que dar para criar uma dívida.

E observar reciprocidade não é o mesmo que exigir simultaneidade.

Duas pessoas podem estar a construir a mesma relação a velocidades diferentes.

Naturalmente, isso também tem limites. Se a diferença de velocidade nos faz sofrer continuamente, se precisamos de uma proximidade que a outra pessoa não consegue ou não quer construir, a incompatibilidade pode ser real. Aceitar ritmos diferentes não significa aceitar indefinidamente uma relação que nos deixa sós.

Significa apenas não decidir demasiado cedo aquilo que só uma trajetória poderia revelar.

É assim que podemos tornar-nos excelentes a selecionar e progressivamente menos disponíveis para descobrir.

E descobrir alguém demora.

Há pessoas que não são extraordinárias nos primeiros vinte minutos. Há conversas que precisam de um segundo encontro. Há amizades que começam banalmente. Há intimidades que não entram na sala com fogo-de-artifício. Há pessoas que precisam de nos ver várias vezes antes de começarem verdadeiramente a mostrar-se.

E há relações que não produzem intensidade imediata precisamente porque não ativam os padrões emocionais a que estamos habituados.

A profundidade precisa de tempo, repetição, curiosidade, silêncios, pequenas frustrações, reparações, momentos comuns, experiências partilhadas e informação suficiente para que duas pessoas deixem de ser projeções uma da outra.

Por isso, talvez uma das competências relacionais mais importantes seja esta: aprender a observar trajetórias em vez de fotografias.

Não perguntar apenas:

“Esta pessoa já me dá aquilo que eu lhe dou?”

Mas também:

“Esta pessoa está progressivamente a aproximar-se de mim?”

Porque uma fotografia pode mostrar 80 e 20.

Uma trajetória pode revelar que estamos a olhar para duas pessoas a caminho uma da outra.

A profundidade não aparece necessariamente pronta. É escavada.

Para refletir

1. Que coisas esperas que uma pessoa te demonstre nas primeiras semanas que talvez só possam ser conhecidas depois de meses de relação?

2. Quando sentes que estás a dar “80” e o Outro apenas “20”, perguntas-te se estás perante falta de interesse ou perante um ritmo de aproximação diferente do teu?

3. Nas tuas relações, costumas observar fotografias – “quanto me dá agora?” – ou trajetórias – “como tem evoluído a forma como esta pessoa se aproxima de mim?”?

4. Quando ofereces muito cedo atenção, profundidade, iniciativa e cuidado, consegues oferecê-los livremente ou nasce, silenciosamente, a expectativa de que o Outro deveria estar imediatamente no mesmo lugar?

5. E talvez a mais difícil: quantas pessoas poderão ter sido realmente insuficientes para ti e quantas poderão simplesmente não ter tido tempo de chegar aos 80 antes de concluíres que os seus 20 eram tudo aquilo que tinham para oferecer?


Nem tudo o que incomoda é incompatibilidade, e nem tudo o que ativa é perigo

A possibilidade de conhecermos alguém durante mais tempo não significa que devamos ignorar sinais importantes.

Precisamos precisamente do contrário: de maior capacidade de discriminação.

A linguagem psicológica tornou-se muito mais presente no discurso quotidiano. Falamos de red flags, trauma, estilos de vinculação, manipulação, limites, gaslighting, narcisismo, indisponibilidade emocional, relações tóxicas. Esta literacia pode ser extraordinariamente útil. Permitiu nomear experiências que durante muito tempo foram normalizadas e ajudou muitas pessoas a reconhecer relações efetivamente prejudiciais.

Mas uma ferramenta criada para aumentar compreensão pode também ser utilizada para eliminar rapidamente complexidade.

Podemos diagnosticar onde poderíamos perguntar.

Interpretar onde poderíamos observar.

Classificar onde poderíamos conversar.

E chamar red flag a tudo aquilo que nos provoca desconforto.

Só que perigo, incompatibilidade, diferença, imperfeição e desconforto não são sinónimos.

Uma pessoa colocar-nos um limite pode provocar desconforto sem representar rejeição.

Uma pessoa precisar de mais espaço pode ser incompatível connosco ou simplesmente diferente.

Uma conversa difícil pode ativar ansiedade sem significar que a relação é insegura.

Uma relação calma pode parecer inicialmente pouco estimulante a alguém habituado a relações marcadas por incerteza e intensidade.

Da mesma forma, uma atração extraordinariamente intensa não constitui prova de compatibilidade.

Precisamos de conseguir levar a experiência emocional a sério sem a transformar automaticamente num diagnóstico da realidade.

Mas esta advertência também precisa de um limite muito claro.

Não devemos utilizar conceitos como “trauma”, “vinculação” ou “sensibilidade à rejeição” para convencer alguém a ignorar comportamentos objetivamente preocupantes. Inconsistência persistente, manipulação, violência, desrespeito, coerção, humilhação ou repetida desconsideração pelas necessidades comunicadas não se tornam aceitáveis porque “talvez estejas ativado”.

Refletir sobre a nossa participação não é aprender a fazer gaslighting a nós próprios.

É conseguir perguntar com maior precisão:

“O que está realmente a acontecer?”

“Que parte pertence à pessoa?”

“Que parte pertence à minha interpretação?”

“Que parte nasce da interação entre ambos?”

“E aquilo que existe é algo com que quero viver?”

A maturidade relacional não consiste em tolerar mais.

Consiste em distinguir melhor.

Para refletir

1. Quando alguma coisa te incomoda numa relação, consegues distinguir perigo, incompatibilidade, diferença, imperfeição e desconforto?

2. Há conceitos psicológicos que te ajudam realmente a compreender os outros e outros que utilizas para chegar mais depressa a uma conclusão?

3. Quando sentes ansiedade numa relação, consegues considerar simultaneamente a hipótese de existir um problema externo e a hipótese de alguma coisa tua ter sido ativada?

4. Que diferenças tens tentado corrigir no Outro quando talvez precisasses apenas de decidir se consegues viver com elas?

5. E que comportamentos tens tentado explicar psicologicamente quando, na verdade, já tens informação suficiente para reconhecer que não os queres na tua vida?


“Primeiro tenho de estar bem comigo”: a prontidão perfeita como nova forma de adiamento

Existe ainda outra frase que parece incontestavelmente saudável: “Primeiro tenho de estar bem comigo“.

Às vezes é verdade. Existem períodos em que uma pessoa precisa de parar, recuperar, reorganizar a vida ou desenvolver recursos antes de conseguir investir responsavelmente numa relação.

Mas a frase pode esconder uma condição impossível: “Só estarei preparado para uma relação quando deixar de ter dificuldades relacionais”.

Aparece então uma espécie de perfeccionismo psicológico.

Primeiro tenho de resolver a insegurança.

Depois o medo de abandono.

Depois aprender a amar-me.

Depois estar completamente confortável sozinho.

Depois deixar de precisar de validação.

Depois aprender a comunicar perfeitamente.

Depois saber estabelecer todos os limites.

E, quando essa versão finalmente “resolvida” de mim existir, poderei relacionar-me.

Só que há uma dificuldade lógica: algumas partes de nós só aparecem em relação.

Podemos sentir-nos perfeitamente seguros enquanto ninguém é suficientemente importante para nos abandonar.

Podemos acreditar que estabelecemos limites muito bem até precisarmos de dizer não a alguém que temos medo de perder.

Podemos sentir-nos autónomos até nos apaixonarmos.

Podemos conhecer teoricamente os nossos padrões e descobrir que esse conhecimento não impede que sejam ativados quando existe vínculo.

Isto acontece porque uma relação não é apenas um lugar onde aplicamos competências psicológicas previamente adquiridas. É também um dos lugares onde essas competências se desenvolvem.

Aprendemos a reparar reparando.

Aprendemos a pedir pedindo.

Aprendemos a tolerar diferença encontrando diferença.

Aprendemos a confiar através de experiências repetidas de confiança suficientemente bem correspondida.

Aprendemos a ser vulneráveis sendo vulneráveis em doses toleráveis e descobrindo aquilo que acontece.

Isto não significa que o Outro deva tornar-se terapeuta, salvador ou responsável pelo nosso desenvolvimento. Significa apenas que desenvolvimento individual e desenvolvimento relacional não acontecem em sequência perfeita.

Talvez prontidão não seja chegar a uma relação sem feridas.

Talvez seja conseguir reconhecer que as temos, responsabilizar-nos pelo que fazemos quando são ativadas, comunicá-las quando necessário, reparar quando magoamos, pedir ajuda quando precisamos e não exigir que o Outro organize toda a sua existência em torno delas.

Uma relação não é o prémio que recebemos quando finalmente terminamos o trabalho sobre nós.

Em muitos aspetos, é um dos lugares onde esse trabalho continua.

Para refletir

1. Que versão de ti acreditas que precisarias de ser antes de te considerares suficientemente preparado/a para uma relação?

2. As condições que estabeleceste para estar “bem contigo” têm um fim possível ou a fasquia continua a deslocar-se?

3. Há dificuldades que estás a tentar resolver sozinho/a que só poderão ser verdadeiramente conhecidas quando alguém se tornar importante?

4. Estás a trabalhar sobre ti para conseguires viver relações de forma mais livre ou para conseguires evitar relações até deixarem de representar risco?

5. O que mudaria se “estar preparado” significasse não “já resolvi tudo”, mas “consigo responsabilizar-me por mim enquanto me relaciono contigo”?


Talvez o problema não seja querermos demasiado. Talvez seja querermos garantias que nenhuma relação pode oferecer

Quando juntamos todos estes fenómenos, começa a tornar-se visível um padrão mais amplo.

Queremos pessoas.

Quando uma pessoa aparece, aparece também possibilidade.

E possibilidade significa incerteza.

Não sabemos se vai gostar de nós, se ficará, se será compatível, se corresponderá, se nos magoará, se a relação crescerá ou se aquilo que parece promissor terminará algumas semanas depois.

É aqui que entram as nossas estratégias de proteção.

Idealizamos para preencher o desconhecido. Avaliamos rapidamente para reduzir risco. Procuramos sinais para antecipar rejeição. Testamos para obter garantias. Esperamos que o Outro demonstre primeiro. Criamos expectativas sobre aquilo que deveria fazer. Retiramo-nos quando essas expectativas falham. Dizemos que não queremos criar expectativas. Prevemos que não valerá a pena. Ficamos no conhecido. Esperamos até estarmos completamente preparados/as.

Cada uma destas estratégias pode parecer muito diferente. Mas talvez todas estejam, em determinados momentos, a tentar resolver a mesma equação:

“Como posso ter intimidade sem ficar vulnerável àquilo que a intimidade torna possível?”

E talvez seja precisamente aí que encontramos um problema sem solução.

Porque algumas das condições necessárias para construir relações significativas são exatamente aquelas que nos tornam vulneráveis.

Para existir confiança, tem de haver tempo suficiente para que a confiança possa ser testada.

Para existir intimidade, alguma coisa precisa de ser revelada antes de sabermos exatamente como será recebida.

Para existir reciprocidade, alguém precisa de dar um sinal que possa ser reciprocado.

Para existir conhecimento, precisamos de tolerar que a primeira impressão seja incompleta.

Para existir reparação, tem de existir primeiro a possibilidade de falha.

Para existir vínculo, precisamos de permitir que alguém adquira importância.

Para existir amor, precisamos de aceitar que aquilo que amamos não está completamente sob o nosso controlo.

Talvez por isso exista um paradoxo no centro de muitas dificuldades relacionais:

queremos os frutos da intimidade, mas nem sempre conseguimos tolerar o processo que os produz.

Queremos confiança sem tempo, profundidade sem vulnerabilidade, segurança sem dependência, liberdade sem incerteza, reciprocidade sem exposição, desejo sem risco, compreensão sem explicação, espontaneidade sem aprendizagem, amor sem possibilidade de perda.

Não porque sejamos absurdos.

Porque todas essas coisas seriam maravilhosas.

Seria extraordinário poder amar apenas depois de sabermos que seremos amados, confiar apenas depois de sabermos que nunca seremos traídos, investir apenas depois de sabermos que a relação resultará.

Mas uma relação humana não pode oferecer-nos essas garantias à entrada.

E quando exigimos ao início aquilo que só o percurso poderia demonstrar, podemos acabar presos num paradoxo: precisamos de provas para avançar, mas algumas das provas que procuramos só poderiam existir se avançássemos.

É aqui que a ideia de segurança emocional talvez precise de ser revista.

Segurança não pode significar “tenho a certeza de que nunca me vais magoar”.

Nenhum ser humano pode prometer isso de forma credível.

Talvez segurança seja também:

“Não sei aquilo que acontecerá entre nós, mas sei que não precisarei de me abandonar a mim próprio/a para tentar impedir que tu me abandones.”

Não é “sei que me escolherás”.

É “consigo mostrar que te escolho sem transformar a tua resposta numa votação sobre o meu valor”.

Não é “sei que esta relação resultará”.

É “tenho informação suficiente para considerar este risco razoável e capacidade suficiente para descobrir o resto enquanto caminho”.

A segurança deixa então de residir apenas na previsibilidade do Outro.

Passa também a residir na relação que temos connosco quando o Outro é imprevisível.

Para refletir

1. Qual é a garantia que mais procuras obter antes de te permitires verdadeiramente investir numa pessoa?

2. Essa garantia pode realmente existir no momento em que a procuras?

3. Qual é o fruto da intimidade que mais desejas e qual é o processo necessário para o construir que mais te custa tolerar?

4. As tuas estratégias de proteção aumentam a qualidade das tuas escolhas ou servem sobretudo para reduzir temporariamente a ansiedade?

5. Se segurança deixasse de significar “sei que nada correrá mal”, o que poderia passar a significar para ti?


E, no fim, a pergunta regressa a nós

Depois de tudo isto, seria tentador transformar este artigo numa nova lista de coisas que estamos a fazer mal.

Seria precisamente o contrário daquilo que ele pretende.

O objetivo não é convencer alguém sozinho de que está sozinho porque “se sabota”, dizer a alguém repetidamente rejeitado que “atrai aquilo que teme”, ou transformar a responsabilidade relacional numa nova forma de culpa.

Há acaso.

Há contexto.

Há exclusão.

Há incompatibilidade.

Há pessoas indisponíveis.

Há relações que nunca poderiam resultar por mais competência emocional que tivéssemos.

Há circunstâncias sociais que facilitam ou dificultam brutalmente encontrar pessoas compatíveis.

Há experiências de rejeição que são simplesmente rejeições.

E há perdas que não contêm uma lição secreta.

Mas reconhecer tudo isso não nos obriga a abdicar da pergunta sobre a nossa participação.

Porque existe uma diferença enorme entre dizer “isto aconteceu porque há alguma coisa errada comigo” e perguntar “existe alguma coisa que eu possa compreender melhor sobre a forma como entro, permaneço e saio das relações?”

A primeira pergunta procura um defeito.

A segunda procura liberdade.

E talvez seja esse o verdadeiro objetivo deste trabalho: aumentar a nossa margem de escolha.

Perceber quando estamos a conhecer e quando estamos a projetar, quando estamos a pedir e quando estamos a testar, quando estamos a proteger um limite e quando estamos a evitar vulnerabilidade, quando estamos a observar um padrão e quando estamos a transformar um episódio numa certeza, quando estamos a escolher ficar e quando apenas não conseguimos sair, quando estamos a escolher sair e quando apenas queremos fugir antes que o Outro tenha oportunidade de decidir por nós.

Talvez literacia relacional seja, em grande medida, a capacidade de fazer distinções.

Entre “não me deste aquilo de que preciso” e “não gostas de mim”, entre “eu faria isto” e “tu devias fazer isto”, entre “eu mereço isto” e “tu deves-me isto”, entre “estou ansioso” e “estou em perigo”, entre “não sei” e “vai correr mal”, entre “somos diferentes” e “somos incompatíveis”, entre “esta pessoa não é aquilo que imaginei” e “esta pessoa é inadequada”, entre “preciso de ti” e “não consigo existir sem ti”, entre “estou a proteger-me” e “estou a impedir qualquer pessoa de chegar suficientemente perto”.

E, sobretudo, entre: “Não fui escolhido/a” e “Não sou escolhível”

Talvez uma das maiores formas de liberdade relacional seja conseguirmos suportar a primeira frase sem construir a segunda.

Porque podemos ser extraordinariamente amáveis e não ser amados por determinada pessoa. Podemos ser desejáveis e não despertar o desejo de alguém. Podemos ter profundidade e não despertar curiosidade naquele encontro. Podemos ser excelentes amigos e não ser escolhidos por todas as pessoas de quem gostaríamos. Podemos fazer muita coisa bem e, ainda assim, uma relação terminar.

Compatibilidade não é uma hierarquia de valor.

Uma relação não é um concurso em que a melhor pessoa vence.

E talvez por isso a pergunta “Porque é que não me escolheu?” nem sempre encontre uma resposta suficientemente satisfatória. Por vezes existe uma explicação clara. Noutras vezes, há apenas duas subjetividades que não produziram o mesmo desejo, no mesmo momento, com a mesma intensidade.

Isso dói.

Mas dor não é vergonha. Perda não é inadequação. Rejeição não é identidade.


Talvez não precisemos de querer menos pessoas. Talvez precisemos de aprender a aproximar-nos delas de outra maneira.

No fim, o objetivo não é tornarmo-nos menos exigentes, menos sensíveis, menos intensos ou menos necessitados de ligação.

Também não é dizer sim a mais pessoas indiscriminadamente, permanecer mais tempo em relações insatisfatórias ou aprender a tolerar comportamentos que nos fazem mal.

É algo mais exigente.

É conseguirmos chegar às relações com critérios sem guiões, necessidades sem contratos invisíveis, esperança sem garantia, curiosidade sem ingenuidade e vulnerabilidade sem abandono de nós próprios.

É sabermos selecionar, mas também descobrir.

Sabermos proteger-nos, mas também aproximar-nos.

Sabermos reconhecer aquilo que não queremos, mas não precisarmos de decidir demasiado cedo aquilo que ainda não conhecemos.

Sabermos sair quando uma relação nos faz mal, mas não sairmos automaticamente apenas porque começou a importar.

Sabermos dizer “eu mereço mais”, acrescentando: “e o Outro merece existir para além daquilo que eu preciso que ele seja.”

Talvez seja isto que torna uma relação verdadeiramente adulta: duas pessoas deixam progressivamente de procurar uma personagem para uma história previamente escrita e começam a descobrir a pessoa concreta que têm diante de si.

Isso exige desilusão.

Não desilusão no sentido de sofrimento inevitável, mas no sentido literal de perder ilusões.

Descobrir que o Outro não pensa como nós.

Não ama exatamente como nós.

Não adivinha.

Não repara sempre.

Não quer sempre.

Não consegue sempre.

E nós também não.

É depois dessa descoberta, e não antes dela, que pode começar uma intimidade menos imaginária.

Talvez não faltem apenas pessoas profundas.

Talvez nos faltem também, em determinados momentos, tempo, curiosidade, coragem e tolerância à incerteza suficientes para chegarmos à profundidade umas das outras.

Tornámo-nos muito competentes a procurar pessoas e, talvez, bastante menos competentes a construir relações. Aprendemos a selecionar, mas não necessariamente a descobrir, aprendemos a proteger-nos, mas nem sempre a aproximar-nos, aprendemos a reconhecer aquilo que não queremos, mas podemos continuar com dificuldade em sustentar o processo necessário para fazer crescer aquilo que queremos.

E é aqui que a última pergunta se torna inevitável.

Não:

“O que há de errado comigo?”

Nem:

“O que há de errado com as pessoas?”

Mas:

“O que acontece comigo quando uma pessoa deixa de ser apenas desejável e começa realmente a tornar-se importante?”

Porque talvez seja aí que apareçam os nossos verdadeiros “mas”.

Quero pessoas, mas tenho medo de precisar delas, quero pessoas, mas preciso de saber primeiro que me escolherão, quero pessoas, mas comparo-as demasiado depressa com aquilo que imaginei, quero pessoas, mas espero que compreendam aquilo que nunca lhes expliquei, quero pessoas, mas desiludo-me antes de experimentar, quero pessoas, mas o conhecido parece sempre precisar de menos justificação do que o mundo, quero pessoas, mas quero chegar a elas já completamente resolvido/a, quero pessoas, mas, quando finalmente encontro alguém de quem posso gostar, começo imediatamente a preparar-me para a possibilidade de perder.

Talvez não tenhamos de arrancar esses “mas” de nós.

Muitos deles foram, em algum momento, formas inteligentes de proteção.

Talvez tenhamos apenas de os reconhecer suficientemente cedo para conseguirmos decidir se, nesta relação, neste momento, com esta pessoa, ainda precisamos deles.

Porque a segurança relacional não consiste em nunca correr o risco de ouvir um “não”.

Consiste também em saber que continuaremos inteiros depois dele.

Não consiste em nunca nos desiludirmos.

Consiste em conseguirmos trocar fantasia por realidade sem perder necessariamente a capacidade de amar.

Não consiste em deixar de precisar de pessoas.

Consiste em conseguirmos precisar delas sem lhes entregar a responsabilidade de provar o nosso valor.

E talvez coragem relacional não seja aproximarmo-nos porque sabemos que seremos recebidos.

Talvez seja simplesmente isto:

não nos escondermos tão bem que ninguém consiga encontrar-nos.

Talvez a verdade mais difícil seja esta…

Chegados/as aqui, seria fácil transformar todas estas páginas numa nova lista de coisas que fazemos mal nas relações. Idealizamos demasiado. Esperamos demasiado. Interpretamos demasiado. Protegemo-nos demasiado. Desistimos demasiado cedo. Temos medo de pedir. Temos medo de mostrar. Temos medo de precisar.

Mas essa seria uma leitura profundamente injusta deste texto. Porque quase nenhuma destas estratégias nasceu do nada. Muitas nasceram precisamente porque, em algum momento, relacionarmo-nos teve consequências.

Aprendemos a procurar sinais porque já fomos surpreendidos/as. Aprendemos a antecipar rejeição porque já fomos rejeitados/as. Aprendemos a esconder interesse porque um dia mostrá-lo nos deixou expostos/as. Aprendemos a não criar expectativas porque já tivemos de sobreviver à queda delas. Aprendemos a ficar porque sair nem sempre pareceu seguro. Aprendemos a exigir garantias porque a incerteza, em algum momento da nossa história, custou demasiado.

Talvez por isso seja importante não olhar para estas estratégias com desprezo. Elas tentaram proteger-nos.

A questão é outra: de quê continuam a proteger-nos hoje – e quanto nos custa essa proteção?

Porque uma defesa pode continuar a funcionar muito depois de deixar de ser necessária. E pode tornar-se particularmente difícil reconhecê-la quando consegue apresentar-se como uma decisão perfeitamente racional.

“Não vale a pena”, “Não quero criar expectativas”, “Se quisesse, fazia”, “Não senti química”, “Eu mereço mais”, “Primeiro tenho de estar bem comigo”, “Já sei onde isto vai dar”, “Prefiro não depender de ninguém”

Talvez algumas destas frases sejam absolutamente verdadeiras em determinados momentos.

Mas talvez outras sejam apenas medo escrito numa linguagem suficientemente convincente para parecer certeza.

E é precisamente aqui que este texto deixa de ser sobre “as pessoas que escolhemos” e passa a ser sobre a posição a partir da qual escolhemos.

Porque podemos selecionar pessoas durante anos sem nunca permitir que alguém se torne suficientemente real para ser verdadeiramente conhecido. Podemos procurar profundidade enquanto descartamos tudo aquilo que não começa profundo. Podemos desejar espontaneidade enquanto esperamos que o Outro adivinhe um manual que nunca lhe entregámos. Podemos exigir reciprocidade sem oferecer primeiro um gesto que possa ser reciprocado. Podemos querer segurança e interpretar qualquer incerteza como sinal de perigo. Podemos desejar ser vistos e, simultaneamente, organizar cuidadosamente aquilo que mostramos para que ninguém tenha poder suficiente para nos magoar.

Podemos passar uma vida inteira a procurar pessoas sem perceber que também estamos a organizar a distância a que elas podem chegar.

E talvez seja esta uma das verdades relacionais mais difíceis de engolir:

nem tudo aquilo que nos protege nos aproxima da vida que queremos.

Há proteções que nos salvam.

E há proteções que, depois de nos salvarem, começam silenciosamente a limitar-nos.

O trabalho psicológico não consiste, por isso, em derrubar todas as defesas e avançar ingenuamente para o mundo. Não consiste em confiar em toda a gente, tolerar relações insuficientes, ignorar sinais de perigo, baixar critérios, insistir onde não existe reciprocidade ou permanecer onde somos repetidamente magoados.

Consiste em desenvolver uma capacidade muito mais sofisticada:

discriminar.

Distinguir medo de informação.

Distinguir desconforto de perigo.

Distinguir diferença de incompatibilidade.

Distinguir uma necessidade de uma exigência.

Distinguir um limite de uma fuga.

Distinguir prudência de ausência preventiva.

Distinguir intuição de previsão.

Distinguir aquilo que o Outro efetivamente fez daquilo que a nossa história nos ensinou a recear que ele faça.

Distinguir “esta pessoa não consegue dar-me aquilo de que preciso” de “esta pessoa não gosta de mim”.

Distinguir “esta pessoa não me escolheu” de “eu não sou alguém que possa ser escolhido.”

Talvez seja isto a literacia relacional: não encontrar finalmente a fórmula certa para nunca mais sofrer, mas tornarmo-nos progressivamente melhores a compreender aquilo que está a acontecer quando sofremos.

E isso implica aceitar uma coisa profundamente desconfortável.

Não existe posição relacional sem risco.

Podemos reduzir riscos, escolher melhor, comunicar melhor, reconhecer padrões, observar consistência, estabelecer limites e afastar-nos quando necessário. Podemos tornar-nos extraordinariamente mais competentes a relacionarmo-nos.

Mas não podemos retirar da relação aquilo que faz dela uma relação entre duas pessoas livres:

a possibilidade de o Outro não fazer aquilo que desejamos.

Não podemos obrigá-lo a ficar.

Não podemos obrigá-lo a compreender.

Não podemos obrigá-lo a desejar.

Não podemos obrigá-lo a escolher-nos.

Não podemos sequer garantir que uma pessoa que hoje nos ama continuará a amar-nos exatamente da mesma maneira amanhã.

É tentador ouvir isto como uma má notícia.

Talvez não seja.

Porque, se o Outro não pode ser obrigado a escolher-nos, então ser escolhido só tem valor precisamente porque poderia não ter acontecido.

Se o Outro não é uma personagem da nossa história, então aquilo que nos oferece pode finalmente ser recebido como algo que vem verdadeiramente dele.

Se não precisamos de controlar antecipadamente o resultado, podemos começar a conhecer.

Se não precisamos de saber imediatamente aquilo que uma relação será, podemos descobrir aquilo que está a tornar-se.

Se uma diferença não é automaticamente uma ameaça, podemos aproximar-nos dela com curiosidade.

Se uma necessidade não precisa de ser adivinhada para ser legítima, podemos comunicá-la.

Se uma rejeição não decide o nosso valor, podemos correr o risco de mostrar interesse.

Se a vulnerabilidade não é o contrário da segurança, podemos deixar alguém tornar-se importante sem concluir que, por isso, deixámos de ser autónomos.

E talvez seja precisamente aqui que uma relação deixa de ser um teste e começa finalmente a ser um encontro.

Não entre duas pessoas completamente resolvidas.

Não entre duas pessoas sem medo.

Não entre duas pessoas perfeitamente compatíveis.

Não entre duas pessoas que nunca se frustram.

Mas entre duas pessoas suficientemente capazes de dizer:

“Eu trago uma história para este encontro. Tu também. Vou tentar não confundir a minha história contigo. Vou tentar descobrir quem és antes de decidir quem és. Vou dizer-te aquilo de que preciso em vez de esperar sempre que adivinhes. Vou escutar aquilo de que precisas sem assumir imediatamente que a tua diferença é uma rejeição de mim. Não prometo não ter medo. Não prometo nunca me defender. Mas tentarei perceber quando estou a proteger-me de ti e quando estou apenas a proteger-me de coisas que aconteceram antes de ti”.

Talvez seja isto que significa relacionarmo-nos de forma suficientemente adulta.

Não deixar de ter expectativas, mas permitir que a realidade as corrija.

Não deixar de desejar, mas não transformar desejo em dívida.

Não deixar de ter critérios, mas não utilizar critérios para impedir descoberta.

Não deixar de nos proteger, mas perguntar de vez em quando se aquilo que nos protege ainda está ao serviço da nossa vida.

Não deixar de precisar de pessoas, mas não transformar a resposta delas num referendo permanente sobre o nosso valor.

Não deixar de ter medo da rejeição, mas não entregar ao medo o poder de rejeitar antecipadamente por nós.

Porque, no fim, talvez o contrário da solidão não seja simplesmente ter pessoas.

Podemos ter contactos, mensagens, encontros, sexo, grupos, seguidores, convites, relações e continuar profundamente sós.

Talvez o contrário da solidão seja algo mais exigente: permitirmo-nos ser encontrados/as.

E ser encontrado/a implica existir diante de alguém sem controlar completamente aquilo que essa pessoa fará com aquilo que encontra.

Implica mostrar interesse antes de possuir garantias.

Dizer aquilo de que precisamos sem exigir que tivesse sido adivinhado.

Dar tempo suficiente para que uma pessoa deixe de ser projeção e se torne pessoa.

Aceitar que algumas nos desiludirão.

Aceitar que algumas não nos escolherão.

Aceitar que nós próprios também não escolheremos algumas pessoas maravilhosas.

Aceitar que compatibilidade não é justiça, que amor não é prémio e que nenhuma quantidade de desenvolvimento pessoal nos dá direito a uma determinada pessoa.

E continuar, apesar disso, disponíveis para o encontro.

Talvez seja essa a última verdade relacional difícil de engolir:

não existe maneira de sermos verdadeiramente encontrados/as sem corrermos o risco de não sermos escolhidos/as.

Mas existe uma diferença enorme entre não sermos escolhidos e não sermos dignos de escolha.

Uma pertence à liberdade das relações.

A outra é uma sentença que não precisamos de escrever sobre nós.

Por isso, talvez a pergunta com que começámos – “O que há de errado comigo?” – não seja afinal a pergunta certa.

Talvez também não seja: “Porque é que as pessoas são assim?”

Talvez seja:

“Que relação quero construir com a parte de mim que deseja profundamente os outros e com a parte de mim que aprendeu a ter medo deles?”

Porque ambas existem.

Uma diz: “Quero pessoas.”

A outra acrescenta: “Mas…”

E talvez crescer relacionalmente não seja fazer desaparecer esse “mas”.

Talvez seja conseguir ouvi-lo, compreendê-lo, agradecer-lhe aquilo de que tentou proteger-nos e, algumas vezes, responder-lhe:

“Eu sei que tens medo. Mas desta vez quero descobrir.”

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