Pais e mães narcisistas raramente se apresentam como vilões o tempo todo. Pelo contrário: uma das suas características mais confusas – e emocionalmente devastadoras – é precisamente a existência de duas caras muito distintas. Para quem cresce neste ambiente, a infância (e muitas vezes a vida adulta) transforma-se num verdadeiro campo minado emocional, onde o afeto e a rejeição se alternam sem aviso.
1: A PRIMEIRA CARA: O PAI/MÃE IDEALIZADO/A
Esta é a face que o mundo costuma ver – e, por vezes, aquela que o/a próprio/a filho/a aprende a defender.
O pai ou a mãe narcisista pode parecer:
- carinhoso/a em público
- generoso/a quando procura reconhecimento
- orgulhoso/a do/a filho/a, desde que este/a “o/a represente bem”
- protector/a, envolvido/a, até admirável
Nesta fase, sentes que finalmente és visto/a. Recebes elogios, atenção e, por vezes, um afeto intenso. Mas há um detalhe crucial: este amor não é gratuito. Ele depende do teu desempenho, da tua obediência, da tua lealdade e, acima de tudo, de alimentares o ego do pai ou da mãe.
A mensagem implícita é clara: “Tu és incrível quando me fazes sentir incrível”. Esta face gera confusão, porque acabas por pensar:“Se ele/a consegue ser assim, então o problema devo ser eu.
2: A SEGUNDA CARA: O PAI/MÃE DESVALORIZADOR/A
Quando frustras expectativas, crias limites ou simplesmente tentas ser quem és, surge a outra face – fria, crítica e, muitas vezes, cruel.
Aqui aparecem:
- críticas constantes ou sarcasmo
- silêncio punitivo (castigo emocional)
- vitimização (“Depois de tudo o que fiz por ti…”)
- explosões de raiva ou desprezo
- inversão de culpa
O amor é retirado como forma de controlo. Passas a viver em estado de alerta, a tentar “voltar” à versão boa do pai ou da mãe, sem te aperceberes de que a alternância é, em si, o mecanismo de dominação.
3: O JOGO PSICOLÓGICO: CONFUNDIR PARA CONTROLAR
A força deste padrão está na confusão. As duas caras levam-te a:
- duvidar da tua própria percepção
- minimizar o abuso (“não foi assim tão mau”)
- sentir culpa por quereres distância
- acreditar que tens de “merecer” amor
Este vai-e-vem emocional cria dependência. O afeto torna-se recompensa. A rejeição torna-se punição. E aprendes, pouco a pouco, que as tuas necessidades emocionais ficam sempre em segundo plano.
4: AS CONSEQUÊNCIAS NA VIDA ADULTA
Crescer com um pai ou uma mãe narcisista afeta profundamente a identidade. É comum que, em adulto/a:
- tenhas dificuldade em estabelecer limites
- confundas amor com esforço excessivo
- sintas culpa ao priorizar-te
- te sintas atraído/a por relações instáveis ou críticas
- carregues uma voz interna dura e acusadora
Muitas pessoas passam anos a tentar “consertar” a relação, sem perceber que o problema nunca foi a falta de amor do/a filho/a, mas sim a incapacidade emocional do pai ou da mãe.
5: NOMEAR É O PRIMEIRO PASSO PARA TE LIBERTARES
Reconhecer estas duas caras não é ingratidão. É lucidez. Não apaga os momentos bons, mas coloca-os em contexto. O amor verdadeiro não oscila entre pedestal e desprezo. Não pune. Não exige anulação.
Crescer emocionalmente, neste caso, muitas vezes significa aceitar uma verdade dolorosa: tu não perdeste um pai ou uma mãe perfeitos – sobreviveste a uma relação emocionalmente inconsistente. E isso diz muito sobre a tua força.
6: COMO LIDAR COM UM/ PAI/MÃE NARCISISTA
Lidar com um pai ou uma mãe narcisista começa por aceitar uma verdade difícil: não é possível mudar quem não reconhece o próprio comportamento. O foco passa, então, de tentar agradar ou explicar-te, para protegeres a tua saúde emocional. Isto implica estabelecer limites claros (mesmo que internos), reduzir expectativas de validação ou empatia, deixar de justificar constantemente as tuas escolhas e aprender a não reagir a provocações ou jogos de culpa. Em muitos casos, criar alguma distância emocional – ou mesmo física – é um acto de autocuidado, não de ingratidão. Procurar apoio terapêutico pode ajudar-te a desfazer a confusão interior, fortalecer a tua identidade e reaprender que o teu valor não depende da aprovação parental.
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