OS RISCOS DO NARCISISMO EM CONTEXTO LABORAL – XXIII

Riscos Profissionais, Custos Organizacionais e Impacto Sistémico do Narcisismo no Trabalho

O narcisismo em posições de poder e influência profissional não é apenas uma questão de estilo pessoal ou traço de personalidade. A investigação em psicologia organizacional, comportamento organizacional e governação institucional demonstra que líderes com traços narcísicos elevados – em diferentes níveis hierárquicos – podem colocar organizações inteiras em risco, gerando custos financeiros, humanos e reputacionais significativos.

O que muitas vezes é interpretado como carisma, autoconfiança ou assertividade pode, na realidade, refletir um padrão de fragilidade emocional mascarada, decisões enviesadas e uso instrumental das pessoas.

1. Porque o narcisismo é especialmente perigoso em posições de poder: Cargos com autoridade formal ou informal oferecem:

  • controlo sobre recursos e pessoas;
  • influência sobre decisões estratégicas;
  • visibilidade e reconhecimento;
  • menor escrutínio direto.

Estes contextos podem amplificar traços narcísicos, sobretudo quando faltam mecanismos de regulação, feedback honesto e limites institucionais. O problema central não é a ambição: é a incapacidade de autorregulação, de aprendizagem com o erro e de responsabilização.

2. Principais riscos organizacionais associados a lideranças narcísicas

i. Tomada de decisões excessivamente arriscadas: Líderes com traços narcísicos tendem a:

  • sobrestimar as próprias capacidades;
  • subestimar riscos;
  • ignorar dados que contrariam a sua visão;
  • privilegiar decisões que reforçam imagem e protagonismo.

Consequências organizacionais:

  • projetos mal avaliados;
  • instabilidade estratégica;
  • perdas financeiras;
  • maior exposição a crises evitáveis.

ii. Desvalorização de equipas e conhecimento técnico: É comum a dificuldade em:

  • aceitar aconselhamento;
  • ouvir especialistas;
  • integrar opiniões divergentes.

A discordância é vivida como ameaça, levando à centralização excessiva da decisão.

Impacto:

  • empobrecimento da qualidade das decisões;
  • silenciamento de alertas importantes;
  • cultura de conformidade e medo.

iii. Criação de culturas organizacionais tóxicas: Lideranças narcísicas tendem a gerar ambientes marcados por:

  • insegurança psicológica;
  • competitividade destrutiva;
  • favoritismo e punições arbitrárias;
  • humilhação subtil ou explícita.

Custos humanos:

  • burnout;
  • ansiedade e depressão;
  • quebra de motivação;
  • aumento do absentismo.

As pessoas deixam de colaborar e passam a funcionar em modo de autoproteção.

iv. Elevada rotatividade e perda de talento: Profissionais qualificados tendem a sair quando:

  • o mérito não é reconhecido;
  • não existe espaço para contribuição real;
  • há desvalorização sistemática;
  • a liderança é imprevisível ou punitiva.

Custos organizacionais:

  • recrutamento e integração;
  • perda de conhecimento institucional;
  • impacto negativo na produtividade;
  • fragilização da reputação enquanto empregador.

v. Riscos éticos, legais e reputacionais: Traços como:

  • sentimento de direito;
  • baixa empatia;
  • foco obsessivo em resultados;
  • desprezo por limites,

aumentam a probabilidade de:

  • práticas antiéticas;
  • assédio moral;
  • abuso de poder;
  • litígios legais;
  • sanções institucionais.

Consequência: erosão da confiança interna e externa.

vi. Gestão da imagem em detrimento da realidade: Existe frequentemente uma prioridade dada a:

  • visibilidade;
  • reconhecimento externo;
  • narrativa pessoal;
  • resultados de curto prazo.

Problemas estruturais tendem a ser:

  • minimizados;
  • ocultados;
  • adiados.

O resultado é uma organização que parece saudável por fora, mas é frágil por dentro.

vii. Custos psicológicos e sociais invisíveis: Para além dos impactos mensuráveis, surgem custos menos visíveis:

  • normalização do abuso psicológico no trabalho;
  • desgaste emocional crónico;
  • replicação de comportamentos abusivos em cascata;
  • perda de sentido de pertença e confiança.

O narcisismo em posições de poder contamina a cultura organizacional.

viii. Porque estes perfis chegam a posições de influência: Alguns traços narcísicos são frequentemente confundidos com liderança:

  • discurso confiante;
  • auto-promoção eficaz;
  • tolerância ao conflito;
  • presença dominante;
  • carisma estratégico.

Em processos de seleção que valorizam excessivamente performance e imagem, estes perfis tendem a ser recompensados.

ix. Como organizações podem reduzir o risco: Organizações mais resilientes:

  • distribuem poder e responsabilidade;
  • promovem feedback honesto e seguro;
  • valorizam competências emocionais e éticas;
  • avaliam impacto relacional, não apenas resultados;
  • mantêm mecanismos claros de denúncia e proteção;
  • evitam personalizar o sucesso numa única figura.

A liderança saudável é sistémica, não egocentrada.

x. Conclusão: o custo real do narcisismo profissional: Lideranças narcísicas não colocam apenas projetos em risco. Colocam pessoas, culturas e sustentabilidade organizacional em risco.

O custo do narcisismo não aparece apenas nos números – aparece:

  • em equipas exaustas,
  • no talento que sai,
  • na ética fragilizada,
  • na instabilidade constante.

Organizações que ignoram o impacto psicológico da liderança pagam caro. As que reconhecem, regulam e responsabilizam constroem ambientes mais seguros, produtivos e duradouros. Porque liderança verdadeira não é dominar: é não destruir enquanto se conduz.

CONTINUA

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